Jornalistas: os novos sacerdotes do povo

Os conceitos de "povo", "população" e "massa" são utilizados pelas pessoas com muita frequência nos dias atuais: seu significado, porém, é vago. Quem é o povo? Eu? Você? Eles? Os pobres? A situação fica mais difícil ao saber que essa massa – composta por alguns e por todos – produz a opinião pública: o pensamento coletivo em consenso sobre alguma coisa que interessa a todos.
Pensar, no entanto, que toda a população consegue chegar em consenso a conclusões racionais – 6,5 bilhões de pessoas – seria inocência: não são eles "ovelhas sem pastor", sempre alguém se propõe a guiar a população e ela própria – nós próprios – procuramos guias para dar um sentido à vida. O pastor que lidera esse imenso rebanho é escolhido pelo grito: quem fica mais tempo em contato com a massa merece a atenção.
No mundo pré-moderno – o que no Brasil representa a época antes da Proclamação da República -, onde não havia grandes meios de comunicação de massa, a Igreja era quem conseguia ir mais longe com sua estrutura bem organizada: seus sacerdotes faziam a ponte entre o povo e sua maior aspiração: Deus. Com a entrada da modernidade, dos meios de comunicação e dos avanços da ciência, esta última passou a ser a aspiração maior da massa: todos queriam ser modernos, ninguém queria ficar de fora. Quem passou a chamar o rebanho não foi mais os sinos das igrejas, e sim os anúncios comerciais de rádio e TV.
Para substiuir a Igreja e seu exército de padres, surge a Mídia e seu exército de jornalistas, que têm a difícil missão de traduzir para a população – que tem como principal atributo a fé – todo o ceticismo científico que emana das novidades que surgem em todos os âmbitos. A liturgia quem dá são os telejornais e a comunhão se faz nas análises dos diplomados, para quem tudo é duvidoso e investigável.
É fundamental lembrar que esses jornalistas são funcionários de grandes grupos de meios de comunicação e multimídia, cujo objetivo principal é o lucro do dono ou de um grupo de sócios: a ética que eles respeitam, então, é a do mercado, a mais vulnerável de todas.
A religião que o povo segue hoje: a televisiva, é apenas uma falsa tentativa de convencê-los que são chefes de si próprios e do país, como crê o ceticismo científico. Mas antes de mandar o povo quer crer em algo ou alguém, e vê nos modernos e atrativos meios de comunicação sua nova igreja. Os jornalistas fazem então a ligação entre os fiéis e a deusa Ciência, que tem como papel principal mostrar à massa como são impotentes e estúpidos diante dela, para que se ajoelhem diante de seu filho, o onipotente deus Mercado. Com ou sem consciência, os jornalistas acorrentam mais a população à uma realidade fantasiosa e paralisante.
Como seria impossível pedir que os meios de comunicação não pensassem no lucro, já que estão incluídos irreversivelmente no mercado, e para fazer seu papel precisam de dinheiro, a saída provavelmente seja outra, com consequências inimagináveis, e já está no meio de nós: um meio de comunicação mais anárquico e cético que o próprio mercado, que não acredita em nenhuma verdade absoluta, nem no lucro: a Internet. Seu potencial, porém, ainda é fraco fora de seus domínios, o que comprova que o povo, descentralizado e sem pastor, não chega a lugar nenhum. E você? Quem é teu pastor?
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One Comment em “Jornalistas: os novos sacerdotes do povo”


  1. […] sociedade e até que ponto as novas tecnologias da comunicação podem solapá-la. Em 2009 escrevi um bom texto sobre isso, e continuo pensando o mesmo. No Brasil, ela ainda é fundamental, ainda que seus jornalistas […]


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