A porta de saída do Brasil para o mundo

A porta de saída do Brasil para o mundo

Narrando Manaus de maneira mais do que familiar, Milton Hatoum liga os bastidores da capital amazonense com um cenário mundial de anseios humanos

Por Vinícius Lauriano Ferreira

 

 

A região norte do Brasil, para quem é nascido no centro-sul do país, é misteriosa e cheia de encantos. Muitos podem cair na facilidade do preconceito – acreditando ser lá apenas terra de índios, do forte calor equatorial, ou coisas do gênero – ou podem pesquisar relatos que tragam uma imagem mais completa, cotidiana, intimista da região, olhada por quem fez daquela terra – por muitos considerada ignóbil – terreno para crescer, viver, sorrir e chorar.

Não são medidos esforços por parte dos filhos daquela parte do país para desfazer a visão do Amazonas desenhada pelos programas de expedições científicas, que levam ao mundo o retrato de uma floresta selvagem, onde os animais imperam e os homens vivem na mais absoluta miséria, como se estivessem num período antes do século XV. Assim como em várias outras regiões do Brasil, é necessário perceber que os seres humanos que moram lá são como todos os outros: possuem costumes, culturas, histórias, sentimentos e, principalmente, um passado rico em tradições e memórias.

Todos esses fatores se somam e potencializam quando se trata de Manaus, capital do Estado do Amazonas, que abriga uma zona franca que atrai tantos estrangeiros para conhecer suas maravilhas humanas e naturais, além de uma longa história de influência europeia por parte dos países próximos colonizados por França, Holanda e Inglaterra. É nesse caldeirão de culturas que nasceu o arquiteto Milton Hatoum, cronista de canetada certeira e palavreado enxuto, que transmite todas as emoções vividas e imaginadas de maneira direta e simples, potencializando, assim, a emoção dos contos. Hatoum viajou o mundo, morou em vários países, mas por onde foi levou a Amazônia consigo.

“A cidade ilhada” (2009) deixa claro a paixão de Milton pela sua terra, e sua capacidade de ligar fatos, muitas vezes separados por oceanos de distância, num mesmo enredo representativo da vida humana. O livro é uma reunião de contos publicados em vários veículos de comunicação, reunidos pela bela análise de diversos comportamentos da consciência humana, que aparecem tanto no subúrbio de Manaus, como na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. “A cidade ilhada” traz personagens que, como afirma o colunista da Folha de S. Paulo, Fábio Andrade, “se fascinam pelo fascínio que a Amazônia, porto de imigrantes, mito edênico e miragem ecológica, exerceu e exerce sobre o olhar estrangeiro”.

 

 

O mundo em Manaus e Manaus no mundo

 

As breves e furtivas narrativas de Milton Hatoum parecem, a princípio, ser apenas um livro de histórias baseadas na própria infância do autor, lugar-comum de vários escritores regionalistas. Aos poucos, porém, estrangeiros das mais variadas origens passam a invadir a vida dos personagens, até o momento em que o leitor se vê já fora do país, vivendo emoções totalmente estranhas a Manaus, ou até mesmo vivenciando belíssimos eu-líricos femininos; mas nunca perdendo o pé enraizado na cultura que, mais do que manauara, é brasileira.

“Varandas da Eva”, conto sobre a primeira experiência sexual de um menino e seus amigos num bordel em Manaus, é o que abre “A cidade ilhada”; já na próxima narrativa os estrangeiros aparecem em “Uma estrangeira em nossa rua”. A partir daí, a viagem se inicia numa universidade norte-americana em “Uma carta de Bancroft”, seguida por uma narradora feminina que recebeu um japonês encantado pelo rio Negro em “Um oriental na vastidão”; que não é o único que se encanta com as belezas naturais: juntam-se a ele um indiano em “Manaus, Bombaim, Palo Alto” e um suíço em “A casa ilhada”.

Todos esses eventos citados não são nem metade das histórias curiosas e dinâmicas de Hatoum, que viaja entre várias modalidades de relatos sem desiludir o leitor. Essa mistura de cultura regional com influências estrangeiras faz do livro um escrito internacional, que mostra um retrato pessoal e fiel de Manaus que vai muito além dos rios e embarcações, sem deixá-los de lado. Ao terminar de ler “A cidade ilhada”, talvez o leitor perceba que a “Paris dos Trópicos” tenha mais em comum com a Cidade das Luzes original, sem perder o mormaço quente das chuvas de verão tropicais que emana das páginas do livro.

 

A cidade ilhada

Autor: Milton Hatoum

Editora: Companhia das Letras

Edição: nº 1

Nº de Páginas: 128

Preço: R$ 31,00

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