O direito de matar, ou SPP (se parar, parou)

Mais um daqueles assuntos casca-grossa vai voltar aos debates de botequins televisivos esta semana: a eutanásia. A questão ressurge das cinzas (literalmente) depois que um apresentador de TV inglês confessou que matou seu namorado que estava em estado terminal de AIDS, afogando-o com um travesseiro. De acordo com ele, os parceiros haviam combinado que tomariam este tipo de atitude em outras épocas.
 
A conclusão do inquérito não tem tanta importância quanto o debate em si, que mais uma vez é travado entre "progressistas" e "conservadores". Os primeiros acham que os fins justificam os meios; os outros acham que o princípio justifica o meio e o fim. Acho que ficou meio confuso, mas é isto aí. Outra diferença entre esse grupos: os "do progresso" são também chamados "atropocêntricos"; os "da conservação" são geralmente "teocêntricos". E esta questão, por mais malabarismo que se faça, acaba passando pela teologia.
 
Afinal, que é a morte? É o fim de alguma coisa, isso ninguém duvida; agora, se é início de outra, aí depende da cabeça de cada um. Mas o fato de ser o final dessa vidinha aqui já a coloca numa posição de mistério. Quem tem o direito, então, de escrachar com o mistério? Ah, só se for um escracho temeroso-irracional, como o do pastor que chutou a imagem de Nossa Senhora, lembram? Mas acho que os que defendem questões desse porte não se rebaixam a tal nível.
 
Argumento dos defensores, dito inclusive pelo colunista Hélio Schwartzman, da Folha: em muitos outros momentos dentro de um hospital os médicos se deparam com decisões como "deixa morrer" ou "faça de tudo pra salvar". Talvez isto também seja influenciado pela conta bancária do paciente, não sei. Mas situações de SPP (se parar, parou) são muito diferentes de eutanásia, afinal, naquelas a morte é natural. Nesta, se deixar lá, a pessoa vive. Talvez com muito sofrimento, mas vive.
 
Ao se mostrarem cheios de compaixão, talvez os defensores deste método estejam relativizando o sofrimento. Talvez esqueçam de que muitas pessoas "vivinhas da silva" sofrem tanto quanto os moribundos. Não seria a morte uma saída para estes também? Concordo com Hélio quando ele diz que "o mundo é mais complexo que as regras", principalmente porque uma regra é simples demais: a vida é a única coisa que temos de verdade – digo isso independente de credos -, então é melhor defendê-la com o que há ao nosso alcance.
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