Adolescentes de meia-idade

Certos fenômenos sociais – a maioria deles – passam a existir em nosso meio de maneira tão natural que só alguns seres mais observadores o percebem e o analisam. Mais um resultado da falta de "cerebração", mas tudo bem. O assunto da vez é a adolescência – jovens em crescimento psicológico que ainda dependem dos pais – que passa a ser cada vez maior em nossa época; é fácil encontrar por aí adolescentes de vinte, trinta anos.
 
A questão veio à tona por uma reportagem – parece-me bem feita – do Fantástico de ontem, na Rede Globo. O mote principal foi uma proposta de um ministro italiano que quer oferecer uma bolsa financeira para incentivar os "kidults" (como são chamados nos EUA) a sair de casa. Muito bem averiguou o repórter que o problema nem sempre é dinheiro: existem marmanjões e moçoilas que ganham suculentos salários e ainda preferem morar com os pais. Bem, nesses casos não sei quem depende de quem.
 
Talvez tenha sido esta reportagem que motivou Ruy Castro a escrever na Folha hoje sobre o problema. No auge da sua experiência – pra não dizer outra coisa – se indignou com a situação, lembrando as gerações "paz, amor, liberdade e comunismo" que davam tudo pra sair da vigilância dos pais e fazer o que bem entenderem em suas próprias moradias. Por que hoje a situação mudou? Talvez hoje o único motivo que restou para os jovens se reunir seja para dançar "funks proibidões cariocas", e isso os pais acham totalmente inofensivo.
 
Para mim, esta não é uma questão tão atual. Sendo desta geração e tendo amigos nas mais variadas situações, percebo que o principal problema está na própria atitude desses pais. Criei a teoria do Ciclo Vicioso de Educação Paterna (tenho medo de falar "criei", porque posso ter visto em algum lugar, mas posso não me lembrar): os pais – exatamente os da geração de Ruy Castro – foram forçados a ir cedo pro mercado de trabalho, ralar e achar um lugar no mundo, que, querendo ou não, era o das oportunidades. Por sua vez, eles não querem que os filhos passem pelo que eles passaram, tendo pena de deixá-los trabalhar e, principalmente, sofrer pela própria conta.
 
Lógico que o fator "comportamento dos pais" é apenas uma das faces da conjuntura: temos ainda a estrutura do mercado moderno, as oportunidades de emprego, a oferta de estudo continuado, e por aí vai. Mas, sem dúvida, está na mão dos pais a solução do problema, e não do governo. Não adiantaria nada oferecer um "Bolsa-sai-logo-de-casa-moleque"; mas se os pais expusessem os filhos a situações onde teriam que se virar, acrescentaria muitíssimo à bagagem de vida destes seres humanos. Até porque um dia, como diria um amigo meu, "papai não vai mais estar ali". E acho que ambos não pensam nessa hipótese.
Anúncios
Explore posts in the same categories: Sem categoria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: