Trotes: suserania e vassalagem

Falta menos de uma semana para o reinício das aulas na maioria das universidades Brasil afora, inclusive a minha. E nesse reinício, é sempre o mesmo blablablá: a recepção dos ingressantes; o que na linguagem universitária se transforma em "trote dos calouros". O nome desse fenômeno, na verdade, é ritual de iniciação, que remonta de séculos atrás, talvez até milênios. Afinal, sempre existiram grupos fechados, irmandades, clubes, seitas, clãs, etc.
 
Um olhar cuidadoso revela neste hábito – que mais do que de universitários, é dos seres humanos – revela dois defeitos muito graves dos homens. O primeiro é a gana pelo poder. Pois o fato de ser mais velho, mais rodado, mais experiente (e, pela lógica caolha, mais sábio), dá o direito de uns mandarem nos outros. E isso, definitivamente, faz as pessoas vibrarem. Talvez seja a semente de uma árvore viciosa que dará frutos no mercado de trabalho, com os velhos chefes chatos. Acreditem: diferente do que dizem, não é a sensação de "fizeram em mim, faço nos outros" (vingança) que move os trotes; é, sim, a relação suserania-vassalagem (qualquer semelhança com o feudalismo não é mera coincidência).
 
O segundo defeito que destaco é um dos quais menos consigo compreender: a alegria em presenciar o sofrimento alheio. Afinal, os calouros sofrem agressões físicas, ameaças verbais, por não saber onde estão, por terem de prestar serviços compulsórios aos veteranos, que riem das dificuldades deles. Pode ser de brincadeira, pode ser "de leve", mas o espírito é o mesmo que move quem gosta de filme de suspense/terror, de masoquismo ou de fazer guerra.
 
Escrevo tudo isso porque as barbaridades que são feitas nesses eventos – e sou testemunha ocular delas – não podem ser vistas como dignas, válidas ou interessantes por ninguém, a não ser pelos universitários que vivem num espírito que ainda não consegui definir. Mas não acredito – e isso é triste – que essa realidade possa ser mudada, pois é composta – como expus – de desvios de comportamento já inerentes à realidade social dos homens. Ou, resumindo em uma palavra, se tornou cultural.
 
PS.: É trabalho delicadíssimo tentar tirar as barbáries da cultura humana. Mas não resta outra opção a não ser continuar tentando.
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