O abismo entre a liberdade de expressão e a ética

A publicidade é uma das áreas mais mal-interpretadas do meio da comunicação social, simplesmente porque ela trabalha para o mercado (assim como as relações públicas), e isso dizem ser imperdoável. São processos comunicativos feitos para gerar lucro às corporações e isto é afirmado por aí – principalmente pelos jornalistas- ser imperdoável. Principalmente no caso da primeira, que usa dos sentimentos para atrair a atenção para determinado produto, em detrimento da segunda que usa a razão em seus processos mais complexos e demorados.
 
No entanto, a publicidade não deve fugir de um preceito universal: a ética (e também a moral, por que não?). Nas últimas décadas, temos assistido uma nova iniciativa por parte dos receptores das propagandas – e também de órgãos de fiscalização e controle – para um refinamento na qualidade dos comerciais. Talvez seja porque o povo está mais intelectualizado, e isso faz com que possam analisar mais criticamente o que recebem da TV, da rádio, do jornal. Exemplo claro são as propagandas de cigarro, que passavam uma ideia totalmente errada do produto, e foram definitivamente abolidas.
 
Para acrescentar um pouco mais de teoria ao debate: a partir do ponto que se diz que se controlou a exibição de determinados comerciais, entra em debate a tal "liberdade de expressão"; algo que, no mínimo, é um tanto difuso. Eu defendo a tal liberdade, até porque não gostaria de ter ninguém vigiando e censurando o que faço e escrevo. Mas reluto em aceitar que o Estado não deve ter um mínimo zelo pela ética. Tratei disso no artigo "O Liberalismo Moral", no fim de fevereiro.
 
Ah, falei muito e esqueci de dizer a que este texto veio. Esta discussão volta à pauta por causa da propaganda da cerveja "Devassa", lançada pelo grupo Schincariol, que foi censurada pelo CONAR, que regula a exibição de peças de marketing. O argumento utilizado foi realmente frouxo: no VT, a mulher estaria sendo tida como um objeto, encarnada por Paris Hilton. Perdão, minhas senhoras, mas isto não é exclusividade da tal propaganda, nem da publicidade, nem da mídia: é da cultura da nossa gente. Mas isso fica para um debate posterior.
 
Os colunistas Fernando de Barros e Silva, da Folha de S.Paulo, e Reinaldo Azevedo, do site da Veja, escreveram hoje sobre o caso, berrando contra a tal censura. Também berro pelo veto completo, mas acho que comerciais do tipo devem, sim, ser realocado para horários mais apropriados. A conotação sexual é gritante, a começar pelo nome do produto: "devasso", de acordo com o Houaiss, significa "depravado, libertino, com desvio moral". À primeira vista, o vídeo não perde em nada para outras propagandas de cerveja, com uma diferença singela: o publicitário da Schin não se preocupou nem com um duplo-sentido para abrandar a questão: foi é no denotativo mesmo. É a mulher devassa que chama a atenção e ponto-final.
 
Uma frase de Fernando de Barros resume a propaganda: "a peça da ‘devassa’ arromba a porta já aberta de um espetáculo que se fingia ver pela fechadura". Reinaldo também faz uma observação interessante: "a frequência que se opta pela boçalidade [na produção das propagandas de cerveja] faz supor que os publicitários têm uma péssima impressão dos consumidores do produto". Como o governo não deve censurar, e os publicitários não respeitam a ética, a saída é cada um de nós proibir a si mesmo de ver determinadas coisas inúteis, além de prezar por uma moral autônoma em nossas vidas e a de nossas famílias.
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