Acidentes acontecem, como encará-los?

Lembro-me muito bem da minha infância, onde éramos – eu e meus primos-irmãos – convocados sempre pelos mais velhos a agradecer a Deus pelas coisas simples da vida: por poder ter uma cama quentinha para dormir num dia frio, um prato de comida farto na hora da fome; existiam também aqueles agradecimentos pela saúde: por poder ver, falar, brincar, correr, estudar. Hoje, já mais crescidinho, penso se os adultos acham que só criança que deve pensar nesse tipo de dádiva gratuita diária, já que eles não se lembram dessa prece diária.
 
O primeiro tipo de agradecimento ainda é mais frequentemente lembrado por ter um cunho social: ao nos depararmos com pessoas dormindo nas ruas no inverno, ou crianças rogando por um biscoito, não há como não "cerebrar" essas questões. Mas talvez o segundo tipo seja ainda mais cruel, já que não escolhe classe social para acontecer: pessoas de todos os berços e localidades são privadas de tarefas mais corriqueiras, as quais nem lembramos que existam.
 
Existem os casos em que ter esse tipo de privação é genético, de nascença ou não; nesses casos fica o mistério e a implacabilidade do DNA humano e seus "defeitos". Mas o que me leva a escrever hoje é uma doença que está se tornando cada vez mais comum, que mata 20% dos que sofrem, mas deixa sequela em outros 70%: o AVC, Acidente Vascular Cerebral, o popular "derrame". Sempre achei esta doença algo inimaginavelmente trágico, e ela passou a frequentar a pauta dos meus pensamentos com mais assiduidade depois que tive um caso na família.
 
A Folha de S. Paulo, no caderno Equilíbrio, traz hoje ótimas reportagens sobre o tema, mostrando, principalmente, que existem à disposição atualmente vários tipos de tratamentos para se recuperar as sequelas deixadas pela falta de oxigênio nos neurônios. Desde a velha fisioterapia, passando pela fonoaudiologia, pelo teatro, pela música e pela terapia ocupacional, o leque é grande, já que os tipos de complicações que podem surgir também são. O fundamental, nesses casos, é agir rápido: nos primeiros meses após o AVC, a recuperação é muito melhor.
 
É interessante um relato de um senhor que teve o tal acidente, na reportagem do jornal: "Fiquei calmo. Era tabagista, pensei: ‘Chegou minha vez’.É pior para o parente, que vê a pessoa com olho e boca caídos, um monstro". Mais do que para a pessoa, que tem de reaprender a viver, fica a lição pra nós: além de agradecer enquanto pudermos andar, cantar e escrever, temos de sempre estar preparados a viver nas mais variadas e complexas situações que a vida pode nos exigir.
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