Dai-me Drogas

Na época em que estava aqui, escrevendo diariamente, ficava revirando a Folha de S. Paulo em busca de assunto pra escrever. Realmente não é fácil achar algo pra falar todos os dias, sempre diferente. Mas basta a gente passar uma semana sem se preocupar com isso, estouram dezenas de assuntos novos, complicados, desafiadores. É a velha e estúpida Lei de Murphy, para os pessimistas. É a vida, para os realistas.
 
Logo que parei de escrever aqui há uns quinze dias, um crime chocou o país (como gosta de dizer Sérgio Chapelin nas retrospectivas de fim de ano da Globo): o cartunista Glauco Villas-Boas foi assassinado junto de seu filho no portão de casa, por um cara que estava "doidão". A situação só deu pano-pra-manga porque Glauco era – além de ótimo cartunista – fundador de uma igreja que usa o Daime em suas celebrações.
 
O Daime – ou ayahuasca – é um chá feito de duas plantas amazônicas, descoberto antes do período colonial pelos indígenas andinos. Com estes seres mui singelos que são os ameríndios, a coisa combinava bem. Eles sempre tiveram o costume de criar umas bebidas estranhas (lembro de um professor de história contando sobre uma feita de milho e saliva de índia) que ajudavam a animar as ocasiões, que para eles, eram sagradas; não custa lembrar: tudo para eles era sagrado: o sol, a natureza, as pessoas.
 
Aí para essa tradição vir parar na cidade, existe uma explicação fácil e rápida: lembram do panteísmo sobre o qual escrevi épocas atrás? Pois é, os malucos-beleza-seguidores-de-Raul –  e suas ideias mirabolantes de acabar com a sociedade organizada mas não acabar com o homem, e sua paixão desenfreada pelos indígenas (que conseguiram fazer isto, só que em outras condições, se é que vocês me entendem) –  resolveram trazer a coisa pra cidade; se era sagrada, não sabiam, mas o que interessava é que dava um efeito bom.
 
Bem, brincadeiras à parte, quero dizer que a ayahuasca é droga. Entorpecente. Alucinógeno. E dessa forma deveria ser abolida do consumo social, como todas as outras que causam alucinações e efeitos graves. Aí vêm o povão: "E o cigarro e o álcool"? Também são, mas não causam alucinações – pelo menos se você não tomar muito, no caso das bebidas alcólicas.
 
O problema é que, em nome da liberdade religiosa, deixam as pessoas se chaparem livremente por aí. Contabilizar quantos Glaucos já não morreram por causa dos efeitos (diretos e indiretos), é impossível saber. Mas talvez deveríamos restringir aos índios o que eles – em sua serenidade natural – sabiam manipular, mas que o homem moderno acaba usando e abusando, principalmente.
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