Cria-se os filhos amando-os?

"Será que o amor dos pais pelos filhos está fora de controle justamente porque as relações afetivas entre adultos se tornaram descartáveis e frágeis?" Este questionamento foi feito pela psicóloga Rosely Sayão, colunista do caderno Equilíbrio da Folha, que sempre traz assuntos interessantes. O assunto (dificuldades no relacionamento entre pais e filhos) é abordado também por Contardo Calligaris no caderno Ilustrada, ambos na edição de hoje. A educação das crianças é um dos assuntos mais complicados para se abordar na atualidade; é também algo muito sério, pois são nessas equações inexatas que estão os destinos das gerações do futuro.
 
Contardo traz um fator bem visível nessas relações: autoridade. É só perguntar pra alguém que já alcançou a meia-idade qual é a principal diferença tanto das relações pais-filhos quanto das professores-alunos: falta-se, atualmente, a tal autoridade para dizer a um filho "cale-se" e ele calar, "sente-se" e ele sentar, "você está indo pelo caminho errado" e ele perceber. A ciência disse que é biológico o fato dos adolescentes serem mais intolerantes com as ordens/conselhos paternos. Mas ao mesmo tempo, o articulista chega a uma resposta muito mais social-psicológica: obedece-se quando se tem amor.
 
Já Rosely vai falar do "excesso de amor" que os pais atuais acabam derramando em seus filhos, tornando-os amadurecidos cedos demais e independentes cedo de menos. Ora, como isso pode acontecer? O amor não pode causar apenas o bem? Pois então, creio que temos um problema muito mais etimológico, que os gregos tratam de resolver para nós: eles dividiam este sentimento complexo em vários nomes, entre eles "ágape" e "eros". Eu, para facilitar as coisas, prefiro chamar "ágape" de "amor" e "eros" de "paixão". O último está ligado às aparências, o primeiro, às profundezas do bem-querer.
 
Portanto, acho que os pais modernos estão muito mais apaixonados por seus filhos, do que amando-os. Até porque o filho é um troféu, algo valioso para mostrar e comparar por aí; esquecem que ali existe um ser humano, bem como acontece nas paixões desenfreadas: o outro é apenas um objeto de satisfação do MEU desejo. Desta forma, tudo fica no campo do visual: os pais amam os filhos dando-lhes presentes, os filhos amam os pais porque recebem presentes. Qual relação se mantém dessa forma?
 
Creio que se a minha geração – que já foi tão "erotizada" – não levar um choque de amor-verdadeiro e mudar de atitude com os filhos, cônjuges e semelhantes, tudo vai se encaminhando cada vez mais para uma situação caótica. Pais vão ter de cada vez mais acorrentar (literalmente) os filhos que não os respeitam, e filhos vão falar com os pais com o dedo em riste. E, realmente, Rosely, não dá pra jogar pelos dois times: pais que materializam seu relacionamento com os filhos, fazem o mesmo com suas esposas, colegas e, quem sabe, amantes, já que esse é o jogo preferido do nosso mundo "Eros". Imaginem o que farão estas crianças e jovens quando forem adultos.
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