Os Sacerdotes e o Celibato

Volto ao tema dos escândalos de padres católicos que novamente voltaram a encher o noticiário, sempre respeitando o "anticatolicismo" que J.P. Coutinho desenhou no artigo que publiquei aqui. Mas não desejo estudar a natureza de atos como a pedofilia, já que é demasiado complexo para um psicólogo de botequim como eu. Mas tento responder a um outro debate, que surgiu pelas mãos de vários articulistas, inclusive de um texto publicado no NY Times semana passada: seria o celibato católico a causa desses desvios de conduta?
 
Sabia eu já que a resposta era "não", mas é sempre importante encontrar dados fieis acerca do que iremos falar. Aliás, como eu não tenho autoridade nenhuma pra falar sobre o assunto (meu único título é ser católico), busquei alguém com renome. Li (e recomendo que todos leiam) a carta que o papa Bento XVI escreveu para os fieis irlandeses. Mas ela é ainda apenas uma carta, trantado dos fatos ocorridos. Lembrei da encíclica Pastores Dabo Vorbis, de João Paulo II, que trata do assunto, mas também de maneira rápida. Fuçando aqui e acolá descobri que o papa Paulo VI, em 1967, escreveu uma encíclica tratando apenas do celibato. Colo alguns trechos da Sacerdotalis Caelibatus, que falam por si só.
 
"O celibato sacerdotal, que a Igreja guarda desde há séculos como brilhante pedra preciosa, conserva todo o seu valor mesmo nos nossos tempos, caracterizados por transformação profunda na mentalidade e nas estruturas.Mas no clima atual de novos fermentos, manifestou-se também a tendência, e até a vontade expressa, de pedir à Igreja que torne a examinar esta sua instituição característica, cuja observância, segundo alguns, se tornou problemática e quase impossível no nosso tempo e no nosso mundo." (SC, nº1)
 
"Cristo, Filho único de Deus, está constituído, em virtude da sua mesma encarnação, Mediador entre o céu e a terra, entre o Pai e o gênero humano. Em plena harmonia com esta missão, Cristo manteve-se toda a vida no estado de virgindade, o que significa a sua dedicação total ao serviço de Deus e dos homens. Este nexo profundo em Cristo, entre virgindade e sacerdócio, reflete-se também naqueles que têm a sorte de participar da dignidade e da missão do Mediador e Sacerdote eterno, e essa participação será tanto mais perfeita quanto o ministro sagrado estiver mais livre dos vínculos da carne e do sangue." (SC, nº21)
 
"Se é diferente a legislação da Igreja Oriental em matéria de disciplina celibatária para o clero, como foi finalmente estabelecido no Concílio Trulano do ano 692 (25) e abertamente reconhecido pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, (26) deve-se a uma situação histórica, também diversa, daquela parte nobilíssima da Igreja, à qual o Espírito Santo conformou providencial e sobrenaturalmente o seu influxo. […] Além disso, não será inútil observar que, mesmo no Oriente, somente os sacerdotes celibatários são sagrados bispos, e nunca os sacerdotes podem contrair matrimônio depois da ordenação; o que faz compreender como também aquelas venerandas Igrejas possuem, em certo modo, o princípio do sacerdócio celibatário e o de certa conveniência do celibato para o sacerdócio cristão, do qual os bispos têm o auge e a plenitude." (SC, nº 38 e 40)
 
"A verdadeira e profunda razão do celibato é, como já dissemos, a escolha duma relação pessoal mais íntima e completa com o mistério de Cristo e da Igreja, em prol da humanidade inteira. Nesta escolha há lugar, sem dúvida, para a expressão dos valores supremos e humanos no grau mais elevado. […] A escolha do celibato não comporta ignorância, ou desprezo do instinto sexual ou da afetividade, o que teria conseqüências certamente prejudiciais para o equilíbrio físico e psicológico do sacerdote, mas exige lúcida compreensão, atento domínio de si mesmo e sapiente sublimação da própria psique, encarada num plano superior. Deste modo o celibato, elevando integralmente o homem, contribui efetivamente para a sua perfeição." (SC, nº 54 e 55)
 
"Oh, se estes sacerdotes [que são infiéis à obrigações assumidas] soubessem quanta dor, quanta desonra, quanta perturbação causam à santa Igreja de Deus, se refletissem na solenidade e beleza dos compromissos assumidos, e nos perigos que enfrentarão nesta vida e na futura, seriam mais cautelosos e reflexivos ao tomar suas decisões, mais solícitos na oração e mais lógicos e corajosos em prevenir as causas do seu colapso espiritual e moral." (SC, nº 83)
 
"Veneráveis Irmãos, […], para concluir esta carta que vos dirigimos de alma aberta a toda a caridade de Cristo, convidamo-vos a voltardes confiadamente os olhos e o coração para a dulcíssima Mãe da Igreja, invocando, com renovada e filial confiança, a sua materna e poderosa intercessão em favor do sacerdócio católico. Nela, o Povo de Deus admira e venera o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo. Maria, Virgem e Mãe, alcance para a Igreja, que também é chamada mãe e virgem, (48) a graça de poder gloriar-se, humildemente e sempre, da fidelidade dos sacerdotes ao sublime dom da virgindade, e de vê-lo florescer e ser cada vez mais apreciado, em todos os ambientes, para que engrossem as fileiras dos que acompanham o Cordeiro por onde quer que Ele vá (cf. Ap 14,4)." (SC, nº 98)
 
Resumindo: o fim do celibato não mudaria nada, na melhor das hipóteses, ou pioraria as coisas. Afinal, o próprio Tio Rei (que está defendendo a ideia) disse que o problema dos casos de desvio na Igreja (a maioria deles) está relacionado ao homossexualismo. Portanto, se os padres fossem livres para manter famílias, certamente não poderiam manter relacionamentos gays. Os problemas continuariam, mais complexos ainda. Portanto, antes de criticar a Igreja por causa dos casos de desvio, lembremos daqueles milhares de homens que abraçam alegremente este dom da castidade.
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