Macunaíma e as catástrofes

"Moro num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza". Esta frase ficou conhecida numa música de Jorge Ben e certamente desenha um retrato do Brasil, talvez um tanto bucólico, um tanto romântico, mas é um retrato. Moramos num país presenteado pela multiplicidade de biomas e espécies naturais, privilegiadamente posicionado no meio de uma placa tectônica e das zonas climáticas do planeta. Ou seja: não temos terremotos, maremotos, furacões ou nada do gênero. Pelo menos até o presente momento.

Aí me lembro da outra piadinha, em que Deus diz "mas espere para ver o ‘povinho’ que vou colocar lá". Será que realmente desperdiçamos toda a potencialidade que nosso país possui? Ou será que é exatamente a abundância de recursos naturais que faz com que sejamos tão relaxados? Afinal, mesmo sem tornados e furacões, um dia de chuvas atípicas podem render mais de uma centena de mortes. E não estou falando só do Rio de Janeiro. Basta o telejornal ser um pouco mais compreensivo com as outras regiões para mostrar quantas cidades estão ficando debaixo d’água ultimamente, o que é um absurdo.

E não é necessário ir muito longe para constatar que algo está realmente errado por aqui. O Chile – nosso quase vizinho – sofreu com um terremoto fortíssimo no mês passado, mais forte talvez do que aquele que atingiu o Haiti. E quantos foram os mortos? Cerca de 400. Por que uma chuva mata um quarto disso em nosso país? Respostas possíveis: porque as cidades estão inchadas; porque as pessoas ocupam lugares irregulares; porque o homem decidiu que uma área tão instável quanto a da baía da Guanabara servia para construir uma cidade. Tudo isso é válido e, ao mesmo tempo, não é.

Afinal, o Chile (voltemos a este bom exemplo) está construído – todo ele – em cima de uma falha tectônica. Traduzindo: a qualquer momento pode acontecer ali terremotos e erupções. O país faz parte do "Círculo de Fogo do Pacífico". E o Brasil? O único círculo que a população conhece são as favelas, que contornam as metrópoles num traçado sinuoso, formando um "haiti brasileiro". E, ao contrário do governo chileno, achamos que somos abençoados demais para tentar corrigir problemas que são, vale ressaltar, corrigíveis. Ainda acredito que seja herança da "paz" indígena, como Macunaíma, de Mário de Andrade, que representava tão bem nosso povo e nossos governantes, com uma mistura de conformismo e oportunismo.
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