Nem só de pão vive o homem?

A vida de um ser humano contém múltiplas facetas e dimensões; não é algo único, estático e travado: pelo contrário, é dinâmico e, principalmente, vivo. Muitas vezes, num cotidiano que nos suga até o último de nossas energias – mesmo que quem sugue seja o ócio – não percebemos essa multiplicidade de "eus" dentro de nós. Da mesma maneira, não conseguimos também lidar de forma eficiente e saudável com as doenças e desvios que surgem em todos os âmbitos; males esses que são inevitáveis: por isso devemos aprender a lidar com eles e tratá-los.
 
Estava eu cá refletindo que podemos dividir nosso ser-individual em três instâncias, como na administração das empresas: o curto, o médio e o longo prazo. Começarei escrevendo sobre o primeiro, que também chamo certas vezes de "instância do corpo". O corpo e sua saúde é o que nos preocupa no "já", o que nos impede de agir hoje. É aquela dor no pé, na cabeça ou nas costas; aquela prisão de ventre, um enjoo ou problemas menstruais (para as mulheres, óbvio); aquele ferimento que não sara, aquele osso já gasto pelo tempo, a unha encravada do dedão. É nesse plano que mais comumente se preocupa: talvez por isso esteja chovendo médico pelas ruas e vielas das nossas cidades.
 
Ao parar por um instante e de modo um tanto imparcial (o que é na prática impossível) observarmos o conjunto de "hojes" que já vivemos, ou seja, a nossa vida nos dias que já passaram, perceberemos que a cada fato novo, a cada fracasso que caímos e cada sucesso que alcançamos nos fizemos como homens e mulheres diferentes; e isto influencia – e muito – no que seremos amanhã. É o médio prazo, ou a "instância do psicológico". Coloca-se aqui todos os velhos traumas adquiridos, presentes no sótão cheio de teias-de-aranha de nossa subconsciência, e que nos atrapalharão nos próximos passos. Nesse sentido, as pessoas atualmente têm se preocupado um pouco mais, dando mais trabalho aos psicólogos e psiquiatras de plantão.
 
Por fim, em certo momento de nossa existência – principalmente ao nos depararmos com algo como a morte, que vai além do hoje e do amanhã – começaremos a nos preocupar com o longo prazo, ou a "instância da alma ou da espiritualidade". A esfera mais sublime, mais importante e de mais dificil diagnóstico e tratamento de um ser humano. É nesse campo que se degladiam nossa realidade pecadora (e, talvez possamos dizer, má) e nossa essência santa, amorosa e boa. Este aspecto surge quando certa feita nos perguntarmos questões básicas como "quem sou?", "pra quê fui feito?", "pra onde vou?". É a nossa preocupação com o eterno. Por ser tão inerente à nossa realidade, essa face surge em todos aqueles que estão nos bancos das igrejas ou que insistem em criticar quem lá está.
 
Por que este mapeamento é importante? Qual a necessidade de nos preocuparmos com ideias desse tipo? Pois talvez isso tudo também faça parte de nosso auto-conhecimento. Afinal, as três esferas não são desligadas e independentes; muito pelo contrário: uma influencia e afeta a outra. E, goste-se ou não disso, mas elas estão apresentadas ali da mais simples à mais importante e complexa. Afinal, qual é mais difícil de ser tratada: uma artrite, uma depressão, ou o ódio? Como deu para perceber, os profissionais estão aí para nos ajudar a tratar de cada âmbito; mas será que não estamos curando o efeito, enquanto a causa continua sofrendo, sem achar um sinal para a solução dos seus problemas? Será que estamos jogando nossos problemas nos médicos, psicólogos e padres, e esquecendo de manter uma dieta de corpo, mente e alma saudáveis? Talvez não hoje, mas em algum momento perceberemos que, realmente, "nem só de pão vive o homem".
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