O cemitério da Anistia

Eu nasci no ano de 1990, uma nova era pro mundo; não só pro mundo, mas também para o Brasil (como diria a personagem do Casseta & Planeta). Nasci no pós-Guerra Fria – não sabia o que era o Muro de Berlim. Nasci no pós-Ditadura Militar: não sabia quem era Gen. Figueiredo, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães ou Fernando Collor. Pra quem também veio ao mundo nessa época, isso tudo é assunto das aulas de história; a não ser o último, que ainda hoje é o bobo-da-corte do nosso Senado e já me fez dar muitas risadas com o personagem que encena.
 
Convivendo com as "pessoas normais" de nosso país – aquelas que tiveram acesso às informações nos meios de massa, mas que não cursaram uma faculdade ou se engajaram em movimento político – percebo que também para elas pouco disso efetivamente aconteceu. Principalmente nas cidadezinhas de interior, as pessoas até elogiam a ditadura, se lembram de PC Farias como piada e realmente acham que devíamos construir o maior muro possível para nos separar do comunismo. Ah, com a última eu também concordo.
 
Por isso o debate intaurado pela revisão da Lei da Anistia no STF ficou tão restrito às cabeças pensantes que escrevem nos jornais por aí afora. Vocês viram alguma roda de carteado da terceira idade discutindo sobre isso? Definitivamente, não. É assunto intelectual, que – ao contrário do que possa parecer – interessa muito pouco para a maioria dos brasileiros; bem como para nós que surgimos depois dessa época. Vira então uma discussão de paixões, do "nós contra eles"; um eles que, monstruoso que foi, é desenhado ainda mais feio hoje – mas calado está.
 
Não existe consenso, porque quem opina já tem uma opinião formada pelas convicções próprias, como no futebol, na política e na religião. Talvez o apelo para que os militares sofram pelo que fizeram – mesmo hoje quando os que ainda não morreram estão moribundos – seja mais forte, e mais gente concorde. Mas mais escondidas do que as ações dos militares estão a dos grupos terroristas de esquerda. Os bandidos estão dos dois lados: de lá, os do mal; aqui, os do bem; dizem alguns.
 
Luz nesta discussão tão tenebrosa vem da coluna de Carlos Heitor Cony, hoje na Folha; ele que deve ter vivido bem tal época. Ele conclui que a Ditadura não estava tão morta quanto falam, e que as concessões feitas por ambos os lados foram vitais para a democracia "cem por cento" que temos hoje. Não queremos desenterrar os mortos, só nos basta saber quem matou e quem morreu – em todos os lados – para afixarmos nos livros de história e contarmos pros nossos filhos.
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