Os direitos intangíveis

Há alguns dias eu lia um texto do professor Antonio Candido sobre a relação entre Direitos Humanos e Literatura. Esta, uma das formas mais refinadas de arte que o homem inventou. Aqueles, motivo de discórdia desde os tempos em que os homens chegaram à conclusão de que deveria haver um padrão sobre o que as pessoas necessitavam para viver (e olha que demoraram quase dois mil anos para pensar nisso). Candido foi perguntado – autoridade em literatura que é – se a literatura é um direito universal do homem também.
 
Ele disse, depois de algumas páginas de divagações acerca das classes sociais e do comunismo, que, sim, é um direito incopressível, inalienável, do homem, ter acesso às obras escritas em todos os tempos, e não só àquelas já normalmente voltadas para o segmento "popular". Era meio óbvio que ele responderia que sim. Mas o que me interessou na questão toda é que ele defende a literatura dizendo que é algo necessário para a construção do ser humano, do seu senso de existência e de sua luta por emancipação pessoal, onde as obras ajudam direta ou indiretamente.
 
Para quem ainda não entendeu: o doutor das letras diz que o acesso à obras literárias é tão importante para as pessoas quanto o arroz, o feijão, a casa que ela mora, o trabalho que dá o sustento e a polícia que evita que roubem dela seus pertences. "Tão importante quanto" quer dizer "igualmente", "do mesmo tanto". Tira-se a comida, as pessoas ficam desnutridas e morrem, tiram-se os livros, as pessoas ficam desfalecidas intelectualmente e também caminham para uma morte existencial. Para mim isso não é novidade, mas sei que é uma loucura para a maioria das pessoas.
 
O engraçado de como Candido explana é que ele produz argumentos para defender apenas a literatura – até porque para isso ele foi convidado pelo organizador do livro. Mas, apesar de restrito a um círculo mínimo da sociedade, suas ideias mostram como os bens imateriais tem importância fundamental na construção do sujeito. Isto mostra como as políticas públicas de nossa sociedade estão muito defasadas. E essas conclusões a gente só chega no fim da vida, quando tudo aquilo que considerávamos fundamental de foi, e sobrou apenas a força das ideias e das lembranças.
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