Jogadores, performáticos, consumidores – Nós e o Mundo

A cada ano a mais que vivo, estudo e conheço um pedaço do mundo (estou quase chegando no 0,0001%), mais sou um apaixonado pela experiência, pela fortuna que ganhamos na vivência do cotidiano. É óbvio que não acredito em tabula rasa; sei o quanto a genética influencia em quem somos. Mas a beleza maior da vida não está numa sequência A-G C-T de DNA, mas sim no que absorvemos no nosso dia-a-dia. Quando se estuda comunicação, principalmente os mass media, isso fica ainda mais importante.
 
Quanto eles adicionam ao nosso cotidiano, ao nosso caráter, ao nosso ser? Essas são as perguntas que Roger Silverstone tenta responder no livro "Por que estudar a Mídia?", que li por esses dias. O trecho de nossas vidas que ele chama de "a textura da experiência", ou seja, tudo quanto se passa a nossa frente e acabamos por nos influenciar e captar; não sem crítica, não sem modificações. A mídia entra na discussão como grande "religião" de nossos dias. Mas as "dimensões da experiência" que ele mostra no texto vão muito além disso e valem ser registradas aqui.
 
A primeira delas trata da "brincadeira". Resumi esse capítulo num verso de música do Hammerfall: "This is a life, is not a game". Até que ponto estamos no controle da nossa seriedade? Entrar num mundo de faz-de-conta é normal para qualquer pessoa de qualquer idade, é fundamental para a manutenção da nossa saúde mental. Mas será que aquilo que fazemos quando criança – brincar – não continuamos a fazer como adultos, demasiadamente? Será que nos dias atuais estamos sendo empurrados mais e mais para o irreal, diante de um mundo tão complexo e aterrador? Certamente que sim. E certamente devemos fugir dos excessos do ilusório.
 
Sem dúvida, a dimensão de nossas vidas que ele aborda no livro que mais me chamou a atenção e me fez refletir foi a da "performance". Somos seres performáticos. Nossa vida se divide entre palco e bastidores; em momentos de pano abaixado e pano levantado. Somos sempre assistidos por uma plateia anônima, muitas vezes imaginária – por que não? Tratar que as pessoas sempre estão envoltas em fantasias, representando papéis, acabou por responder muitas perguntas que eu fazia. Como podem as pessoas mudar tão repentinamente? Por que quando estamos em grupo agimos de maneira diferente do que isoladamente? São fantasias, carapuças, máscaras que vestimos de acordo com a situação. Mas um mundo de performance não é também sem identidade própria? O que somos na alcova de nossos lares? Os atores da televisão e do cinema não podem nos fazer querer atuar sempre; devemos tomar cuidado para, também nós, não termos nossas faces consumidas pelas máscaras que adotamos.
 
Por fim, Silverstone trata do "consumo", tônica maior dos tempos atuais. Tudo é consumo, tudo é consumível e adquirível (não sei se isso existe), inclusive nós mesmos. As relações de troca estão sempre presentes. E se algo pode ser comprado, é porque pode ser perdido. Tudo passa a ser passageiro e efêmero; devemos sempre estar "recomprando" e reconquistando os objetos. Inclusive o tempo. No fim, forma-se uma espiral que, ao nos deixarmos seduzir por ela, nos traga e nunca mais nos cospe.
 
O livro é fantástico. Certamente ainda dará frutos em outros textos. Sobre cada tema desses há muito o que se falar. Isso é "cerebrar". E é exatamente porque influencia em todos estes aspectos de nossas vidas que devemos também – e sobretudo – "cerebrar" a mídia moderna.
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