“(…)a Igreja não procura tornar-se atraente(…)”

Uma discussão que sempre me meto por aí quando se fala da atual situação da Igreja, é quanto à necessidade de ela "se moldar aos novos tempos", "parar de ser retrógrada", "utilizar-se dos vários meios para atrair fiéis", "se transformar em algo atrativo para as pessoas". Essas são citações aleatórias, das várias coisas que ouço em vários lugares, dos jornais às conversas de botequim. Tenho defendido que a Igreja é o que é hoje (muito parecida com a de quase 2.000 anos atrás) exatamente porque continua crendo, fazendo e vivendo das mesmas coisas.
 
Na semana passada, o papa Bento XVI fez uma visita ao Reino Unido, aquela que Richard Dawkins disse que iria aproveitar para prendê-lo por conivência com a pedofilia. Diferente de Dawkins, o Santo Padre levou o que era necessário: paz e postura firme da Igreja quanto ao que ela é. Na já tradicional entrevista a bordo do avião, rumo à terra estrangeira, o papa deu o seguinte depoimento. Fantástico.
 

Pe. Federico Lombardi: O Reino Unido, como muitas outros Estados ocidentais — é um tema que já abordou na primeira resposta — é considerado um país secular. Há um forte movimento de ateísmo, até com motivações culturais. Mas há também sinais de que a fé religiosa, em particular em Jesus Cristo, é viva a nível pessoal. Que pode significar isto para católicos e anglicanos? Pode-se fazer algo para tornar a Igreja, como instituição, mais credível e atraente para todos?

Santo Padre: Diria que uma Igreja que procura sobretudo ser atraente já estaria num caminho errado, porque a Igreja não trabalha para si, não trabalha para aumentar os próprios números e, assim, o próprio poder. A Igreja está ao serviço de um Outro: não serve a si mesma, para ser um corpo forte, mas serve para tornar acessível o anúncio de Jesus Cristo, as grandes verdades e as grandes forças de amor, de reconciliação que apareceu nesta figura e que provém sempre da presença de Jesus Cristo. Neste sentido a Igreja não procura tornar-se atraente, mas deve ser transparente para Jesus Cristo e, na medida em que não é para si mesma, como corpo forte, poderosa no mundo, que pretende ter poder, mas faz-se simplesmente voz de um Outro, torna-se realmente transparência para a grande figura de Cristo e para as grandes verdades que ele trouxe à humanidade. A força do amor, neste momento ouve-se, aceita-se. A Igreja não deveria considerar-se a si mesma, mas ajudar a considerar o Outro e ela própria ver e falar do Outro e pelo Outro. Parece-me que neste sentido também anglicanos e católicos têm a simples e idêntica tarefa, a mesma direcção a tomar. Se anglicanos e católicos juntos virem que não servem a si mesmos, mas que são instrumentos para Cristo, amigos do Esposo, como diz São João, se ambos executarem a prioridade de Cristo e não de si mesmos, então também caminham juntos, porque a prioridade de Cristo os irmana e já não são concorrentes onde cada um procura o maior número, mas estão unidos no compromisso pela verdade de Cristo que entra neste mundo e assim encontram-se também reciprocamente num ecumenismo verdadeiro e fecundo.

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