Os empreendedores são os vilões?

Já estamos na terceira disputa eleitoral semi-plebicitária entre PT e PSDB, e da mesma forma que nas anteriores o assunto privatização volta como arma nas mãos dos petistas, de forma muito parecida como antigamente era dito “comunismo”: um bicho-papão. Como a maioria dos assuntos debatidos, perde muito da profundidade nos programas políticos, tornando-se uma ideia abstrata, quase um mantra de forças ocultas.

Mas será mesmo que o Estado Nacional é um bom gestor? Será que o país está indo razoavelmente bem pelas políticas públicas ou pelo esforço dos empreendedores, que mesmo enfrentando cenários muito adversos, conseguem prosperar e fazer o país prosperar junto? Tendo – e isso é de berço – a achar a cultura do “cliente tem sempre razão”, melhor que o socialismo dos serviços públicos. Deve ser porque não tenho nenhum parente com cargo público.

Publico abaixo um artigo da seção “Opinião” da Folha de hoje, escrito pelo ex-diretor de política monetária do BC, Luiz Augusto Candiota. Concordo com quase tudo que ele diz, e com a satanização das privatizações que está rolando por aí, é muito importante ver um artigo que defende 100% o outro lado. Interessante.

TENDÊNCIAS/DEBATES

Agenda capitalista moderna para o Brasil

LUIZ AUGUSTO CANDIOTA


O aumento dos tentáculos do Estado vai na contramão das nossas necessidades e trará custos altíssimos, a serem pagos pelas futuras gerações


Faz tempo, muito tempo, que a palavra capitalismo em nosso país tornou-se quase um palavrão. Por que será? Qual o medo real, fruto do desconhecimento por parte das “elites” políticas, intelectuais e empresariais deste sistema econômico?
O Brasil precisa ter um sistema capitalista moderno, que nos tire do ranço patrimonialista regido por um Estado concedente de benesses a seus privilegiados e mantenedor de uma maioria ignorante e de um “sofisticado” sistema de corrupção favorável à não competição e à perpetuação do atraso.
Necessitamos de um capitalismo que incremente o poder efetivo dos cidadãos sobre o Estado, que traga segurança jurídica e respeito aos direitos individuais.
Um capitalismo verdadeiramente competitivo, que estimule a abertura total de nossa economia e promova a produtividade, retirando por completo do Estado a participação em determinados setores.
O Brasil está cansado do discurso e da prática daqueles que proclamam ser social-democratas, que praticam um socialismo às avessas da modernidade do conhecimento e tentam controlar a democracia.
Não devemos temer aqueles que dizem ser o capitalismo concentrador de rendas e ampliador de desigualdades. Não há exemplos concretos de que isso seja verdade em regimes abertos, democráticos e de sociedades pluralistas, ou que tal regime tenha gerado frutos, em seu conjunto, mais prejudiciais do que o que praticamos por aqui.
O Brasil não deve temer os efeitos das recentes privatizações, mas não deve permitir que certos setores se concentrem nas mãos de poucas empresas, que acabam por “dominar” seus reguladores, o Estado, em um jogo de interesses e corrupção em que a melhoria e a competitividade dos serviços não é acompanhada pela redução dos preços ao consumidor.
Não é razoável que tenhamos um dos maiores mercados de telefonia do mundo e a maior das tarifas dentre os países do Ocidente. É preciso aumentar a competição, não reclamar da privatização.
O aumento dos tentáculos do Estado vai na contramão das nossas necessidades e nos trará custos altíssimos, a serem pagos pelas futuras gerações.
A agenda do capitalismo que proponho é a de um Estado presente única e exclusivamente nas áreas de educação, saúde e segurança.
Essa presença deve ser exemplar, com serviços e mão de obra de qualidade.
Ao setor privado só restará atuar nessas áreas caso tenha a competência suficiente de prover serviços competitivos e superiores aos prestados pelo Estado.
O Estado não deve ter bancos, empresas de petróleo, de telefonia e de energia, dentre outras muitas.
São apenas grandes cabides de empregos e fontes inesgotáveis de corrupção e transferência de riqueza para poucos.
O Estado não tem competência para escolher quem serão os vencedores e para premiá-los antecipadamente por meio de vultosos subsídios e proteções.
Para o Brasil urge uma nova agenda, que saiba usufruir da competição aberta e do desejo empreendedor do ser humano.


LUIZ AUGUSTO CANDIOTA é sócio-fundador do Grupo Lacan. Foi diretor de política monetária do Banco Central (governo Lula).

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