Uma mancha em nossa história

“Ih, ele perdeu, agora vem com discurso vitimista”. Bem gostaria eu que minha fala fosse de simples vítima ressentida, e que tudo não passase do campo dos interesses particulares, do gosto de cada um. O dia de hoje poderia ser como a última rodada do Brasileirão do ano passado, quando o Palmeiras deu vexame e perdeu o título que estava praticamente ganho; aí, escreveria “Uma mancha na história do Palmeiras”, e os corinthianos cairíam na gargalhada. Mas na política a questão passa longe do gosto pessoal, os resultados não afetam uma parte só da população e efeitos podem não ser revertidos na próxima temporada. Por isso afirmo, com minha pouca experiência na análise política: a sofrida e instável democracia brasileira inscreveu mais uma mancha em sua conturbada história. Por quê?

Porque nós elegemos hoje para a Presidência da nossa amada República uma desconhecida ou, no máximo, uma recém-conhecida. Como isso é possível? Não sei; só sei do ineditismo do fato. Tentei achar paralelo na história do país, comparar com Jânio Quadros (o mais patético dos presidentes) ou com Eurico Dutra (que nunca tinha exercido cargo nenhum), mas não consegui nada que chegasse perto; semelhanças, vi em General Deodoro, Getúlio, Jânio, Médici, Sarney: cada um a seu modo. Mas NUNCA na história do Brasil se elegeu alguém para o maior cargo de comando por indicação (e não foi nada além disso) de outrem. Ou haveria chance dela concorrer para esse cargo, dessa forma, se não tivesse sido escolhida por Lula? Não interessa quem é ele, nem quanto de popularidade ele supostamente teria. Em janeiro veremos Dilma Vana Rouseff recebendo a nossa querida faixa presidencial; mas quem é essa mulher? Alguém tinha ouvido falar dela antes de virar Ministra de Minas e Energia de Lula? Nem a carreira meteórica de Jânio foi assim, nem a vitória de Dutra em 1946.

Porque nunca numa eleição foi necessário uma satanização tão grande do adversário, inclusive com a participação especial do próprio Presidente, que foi – na verdade – o protagonista. A onda de mentiras e acusações sem sentido poderia fazer corar planos Cohen, ou tentativas de ligar Jango com os chineses. E não estou comparando a eleição de Dilma com um golpe de Estado: reconheço sua posse do cargo por mérito da escolha popular: viva a democracia! Mas isso não apaga os fatos de como essa campanha eleitoral foi dirigida, produzida, praticada e orquestrada. Hoje pode parecer guerra de opinião, mas o futuro nos mostrará que isso é mais um fator para a mancha escura deste pleito.

Porque esta eleição certamente fez “revirar no caixão” (nenhum paralelo com o Dia de Finados que se aproxima) todos os eleitores aguerridos desde às épocas do Brasil Colônia, que de tão exacerbados partiam pra agressão física. Saímos desses vexaminosos currais eleitorais para os terrenos desordenados e inférteis do voto emocional. Olhem para a questão dos debates: debate com proposta é morno; debate com discussão política é baixaria. Votou-se – principalmente a faixa de população com algum discernimento intelectual – naquele que lhe menos desagradava, principalmente no que tange aos cinco sentidos. “Não gosto como fulano fala”, “não gosto como sicrano olha”, “não gosto da aparência de beltrano”. É o pior jeito de se escolher um comandante.

Não bastasse termos escolhido uma desconhecida da maioria até ano passado, termos assistido um presidente que como autoridade máxima da Nação é um ótimo cabo eleitoral, e de termos assistido a uma péssima análise política por parte dos eleitores – que fizeram dum palhaço o seu representante mais votado -, ainda temos de ouvir a nova presidente eleita dizendo que “estende a mão” àqueles que não estiveram do lado dela na disputa. Não precisamos de sua mão, Sra. Dilma! Não estamos caídos. Continuamos de pé, ao menos com parte desses 43% de eleitores que estiveram conosco conscientemente. Como disse Serra, “esse é apenas o início de uma luta”. Fique certa que nos estruturaremos e continuaremos aqui, na esperança de sermos oposição de verdade daqui pra frente. A senhora tem toda a autoridade para estar onde está (que o povo lhe deu), fazer a festa que tiver de fazer; mas nada me tira da cabeça que sua eleição como Presidente da República será lembrada para sempre como (mais) uma mancha na história da Nação Brasileira. Que faça um bom governo, e viva o Brasil!

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