Menos Tropa e mais Elite

O cinema brasileiro, apesar de muito talentoso, não está entre os mais aclamados do mundo, nem mesmo tem um grande rol de filmes de sucesso, lembrados por anos e anos. Podemos colocar nesse grupo o “Central do Brasil”, que concorreu ao Oscar, e o “Auto da Compadecida”, combinação de um texto formidável de Ariano Suassuna com uma atuação inesquecível de Selton Mello e Matheus Nachtergaele. Anos atrás, porém, um outro sucesso surgiu: “Tropa de Elite”, que combinou algum fatores de destaque: uma boa ação (com tiroteios e mortes), um bom retrato da realidade brasileira e uma ótima rede de distribuição em todos os camelôs do país, mesmo antes da película chegar às salas de projeção. Como saber que ele entrou para esse seleto grupo? Ora, é só perceber como “fanfarrão”, “zero-meia” e “Capitão Nascimento” viraram palavras assimiladas à nossa língua e realidade.

Acontece que depois do sucesso que virou, o diretor José Padilha resolveu lançar a continuação, “Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro”. Nada mais justo, pois sem dividir os lucros com a rede informal de venda de entretenimento (se é que me entendem) o diretor poderia lucrar um pouco mais, creio eu. Capitão Nascimento está de volta, mas perdeu a farda preta: por um erro de operação, foi transferido para a burocracia estatal, de onde consegue transformar o BOPE numa “máquina de guerra”, e resolver os problemas da violência e tráfico de drogas do Rio de Janeiro. Só que surgem novos inimigos: as milícias, formadas pelos próprios policiais corruptos, atrelados à política, chegando a sujeira nos pés do governador do Estado.

Confesso que gostei mais deste filme, apesar de não ter na memória o primeiro com 100% de clareza. Sou chegado num filme de tiroteio e ação pura, mas também aprecio um entretenimento que faça pensar (tanto filme, quanto TV, música, teatro, livro, etc). Portanto, acho que os dois se completam. A discussão acerca da qualidade desse último – até mesmo por entrar num plano ideológico de cabeça – paira sobre o tal “sistema”, que Nascimento repete tantas vezes. Ele diz que mesmo quando chefe do BOPE seu objetivo sempre foi “f*der o sistema”. Que sistema é esse?

Nesse assunto sou experiente: a primeira banda de rock pesado que escutei (nos meus idos 14 anos) foi o famoso “System of a Down”, que tinha uma música cujo título era exatamente o mote do Capitão: “F*ck the System”. De qual sistema a banda falava? De tudo que é organizado que o homem já criou, a sociedade como um todo. Talvez algo relativo ao velho anarquismo, pelo qual tenho uma mínima simpatia, mas sei da sua utopia prática. Poderemos imaginar um mundo com 7 bilhões de pessoas sem sistema de governos, de controle, de negócios? Não. Mas eu não vejo que o herói do BOPE esteja se referindo a esse sistema como um todo, pois o vejo como alguém que sempre buscou uma melhora para a sociedade, e é por isso que ele lutava. O “sistema” de Roberto Nascimento é exatamente aquele corrupto, que reside no Congresso, nos Governos, nas polícias, nas famílias: aquele da venda de si próprio por benefícios.

Portanto, não acredito que Nascimento tenha virado um possível militante do PSOL depois desse episódio (como afirmou o Tio Rei hoje). Mas o fim da obra pode nos fazer parar pra pensar, acerca dessas ideias anti-sistema representadas talvez na figura do Deputado Fraga, que apesar de terminarem amigos, não creio que – se houver o TdE 3 – eles estarão trabalhando juntos na mesma causa. Afinal, Nascimento sabe que o problema está com os desmandos da política, que refletem na polícia e em toda a sociedade. Mas também sabe que a comercialização de drogas, e seu consumo e financiamento pela classe alta continua e alimenta uma outra roda de sangue. No filme, ele acabou com o tráfico no Rio, mas se viu de mãos atadas quando se deparou com a sujeira da política. Nesse caso, o papel da polícia continua, mas também é de pobres mortais, cidadãos e eleitores, como eu e você.

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