O papel do Estado

Essas últimas eleições trouxeram novamente à tona (por vício dos petistas e falha dos tucanos) a questão da privatização. Se disseram que nós “satanizamos” Dilma com o assunto do aborto, pode-se dizer que a campanha da candidata do governo poderia dar uma aula em pleno inferno em relação ao assunto, pelo que fizeram na questão da venda de estatais. Na teoria, colocaram um jogo antitético entre os defensores de um Estado forte e os que defendem a “privataria”, sustentam os ricos e vendem o país. Uma bobagem na teoria e também na prática, já que sabe-se muito bem que o governo Lula foi um ávido praticante dessa arte. E não que eu ache isso errado; pelo contrário: é o que ajudou o país a crescer nesse período. Estou ensaiando começar a falar um pouco mais sobre liberalismo e cia. Já postei o longo texto do Tio Rei sobre a Comunicação, que eles querem estatizar. Agora coloco a sempre fantástica coluna de JP Coutinho, de hoje na Folha. Dá uma aula de raciocínio e análise.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Dois planetas


O Brasil que elegeu Dilma é o que depende do governo; nos EUA, avanço do Tea Party se liga a DNA do país


BRASIL E Estados Unidos. Dois continentes distintos. Não apenas geograficamente. O assunto é outro. Em três dias, com duas eleições, qualquer estudante de ciência política poderia ter recolhido tema para uma tese de doutorado. Com uma pergunta simples: qual o papel do Estado nesses dois planetas?
No Brasil, a resposta seria: papel central. Dilma não foi eleita, apenas, por ser a dileta sucessora de um presidente com 82% de aprovação. Dilma venceu pois convenceu a maior fatia de gente que olha para o governo como princípio e fim de suas vidas -e sobrevivências.
Não vale lembrar a vitória esmagadora no Nordeste, que quase representa a diferença de 12 milhões de votos entre os candidatos.
Um estudo desta Folha é claro: o Bolsa Família, o índice de desenvolvimento humano e a renda per capita influenciaram o voto. E quanto mais baixo se desce nesses indicadores, maiores as chances de acharmos eleitor petista. O Brasil que elegeu Dilma é o que tem com o governo uma situação de dependência.
Subimos para o norte, cruzamos a fronteira norte-americana, e as eleições legislativas, dois dias depois das brasileiras, mostram um cenário diferente. Barack Obama, o Messias, que há dois anos tinha 70% de aprovação, hoje anda pelos 45%.
A economia americana pode não estar tecnicamente em recessão. Mas o desemprego continua em alta e, dado fundamental, Obama confunde a América (e os americanos) com o Brasil. Ou com qualquer social-democracia europeia, procurando fazer dos Estados Unidos uma Escandinávia em inglês.
Azar: os republicanos venceram na Câmara (e quase no Senado) pois discordam da visão de um Estado gigantesco, que reclama quantidades crescentes de tarefas, gastos e responsabilidades. Na saúde. No ambiente. Na economia. Na banca. Em tudo que mexe e respira.
Seria fácil e cômodo resumir a derrota de Obama ao populismo “extremista” do Tea Party, o movimento que deseja reverter a agenda de Obama com menos impostos, menos gastos e menos governo.
Mas o Tea Party é uma salada de frutas onde há tudo: lunáticos, sim; fanáticos, com certeza; mas a esmagadora maioria é feita de gente comum. Americanos comuns. E esses, até pelo DNA histórico, sempre desprezaram o poder, o governo e a abusiva intromissão dele nas vidas.
No Tea Party, encontra-se a alma americana no que ela tem de mais anarquista e libertário; e essa alma foi uma constante ao longo da história. Com Thomas Jefferson. Com William Howard Taft. Com o subestimado (e importantíssimo) Barry Goldwater. Com Ronald Reagan. E, claro, com os originais “tea partiers”, que no século 18 estiveram dispostos a tudo, até à revolução, para travarem o absolutismo fiscal de George 3º. Assim nascia um país.
Os “tea partiers” de hoje não abominam apenas Obama e tudo o que ele representa -a sua reforma da saúde, o seu estímulo econômico de US$ 900 bilhões e uma dívida nacional que já fura a estratosfera.
Eles abominam Obama com a mesma força com que abominaram Bush e os “neocons”. Porque acreditam que Bush e os “neocons”, tal como Obama, confiaram ao governo parcelas crescentes de poder econômico, político, burocrático e social. E atraiçoaram o que é caro ao americano comum: a liberdade individual, o gosto pela livre iniciativa. E um governo limitado: fora de suas casas, de seus bolsos, de suas vidas.
Os “tea partiers” podem não ter lido Hayek, o economista austríaco para quem o crescimento incontido do Estado representava o caminho para a servidão. Mas eles sentem-no instintivamente; sabem que um Estado mastodôntico não é apenas economicamente ineficaz e potencialmente corrupto; é, sobretudo, moralmente perigoso, ao criar legiões de dependentes que o governo trata como crianças.
E o Brasil? Hoje, apesar do crescimento econômico, continua um dos países mais desiguais do mundo. E, seguindo a nefasta herança dos seus colonizadores, perpetua o pior do pensamento patrimonialista e paternalista (um oxímoro, eu sei).
Essa doença só se cura com mais riqueza, menos desigualdade, melhor educação. E um gosto pela liberdade individual que, acredito, será um dia majoritário entre as gerações futuras do Brasil.

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