Eu e a Tabacaria de Pessoa

Vivi, estudei, amei, e até cri,
 hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);

Mas eu, que tudo isso vivi, fiz, e amei
E percebo que o fim se aproxima e nada mais pode fazer retardar o tempo
Levo a cabo os projetos desejados que um dia iniciei.

Mas o que seria um evento de despedida
Se despedida fosse, apenas isso e nada mais?
Onde estão as alegrias das vidas vividas?
Onde estão as descobertas dos estudos estudados?
Onde estão as flores dos amores amados?
Ficaram pelo caminho as crenças adquiridas?

Não, nada disso pode ser assim, tão só
E, ao menos por um momento, quero sentir ainda a realidade
E não há nada melhor para se retratar a vida, a ciência, o amor, a fé
Do que reviver aquilo que tudo pensa e tudo é:
A poesia de um poeta de verdade.

Poema escrito a quatro mãos: em azul, trecho de Tabacaria, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa; em vermelho, feito por mim, especialmente para a abertura do evento “75 anos sem Pessoa”, realizado pela minha turma por esses dias. Nada fiz a não ser usar a ideia do grande mestre da Língua Portuguesa para a ocasião.

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