Indo além do hastear da bandeira

O Rio de Janeiro passou por uma guerra civil nos últimos dias que acho desnecessário explicar como tudo se passou. Mais do que linhas e linhas de texto, a imagem de milhares de homens da Polícia e das Forças Armadas chegando a bordo de carros blindados e tanques-de-guerra nas favelas da cidade é assustadora. Pegou a todos nós de surpresa toda essa reação estatal frente à alguns ataques dos bandidos na cidade. Até hoje não se explicou porque tudo se passou dessa forma, tão rápida e enérgica. Mas o que houve ali foi uma guerra. Se não houveram tantos mortos como de costume, é porque um dos lados percebeu que era mais lucrativo fugir; mas todos os outros cenários de um confronto bélico estavam ali.

E a guerra era civil, já que acontecia dentro de uma cidade, dentro de um país. Pessoas da mesma nacionalidade lutando entre si. Claro é que o tráfico de drogas (capitaneado pelo crime organizado) criou um governo paralelo para todos aqueles moradores das favelas: as leis e os julgamentos eram eles quem faziam; a ordem eram eles quem mantinham; até mesmo o emprego, para muita gente, eram eles que proporcionavam. Desse modo, não há outra saída ao Estado senão recuperar o território onde perdera a autonomia e comando. Como com esse tipo de bandido a linguagem da diplomacia não funciona muito bem, fala-se a língua deles: a bala.

Mas é sumamente necessário se perguntar: por que tal situação chegou a esse ponto? Por que temos que nos alegrar – como fizemos – ao ver que a bandeira nacional foi novamente hasteada no alto da favela? Em que momento aquele território deixou de ser Brasil? Os traficantes – em algum momento – tomaram aquela região em combate, lutando contra os bravos soldados brasileiros que exigiam a soberania de seu Estado? Não. Definitivamente não. Os bandidos só tomaram conta do grande conglomerado de favelas do Rio de Janeiro (e de quase todas as outras cidades do país) porque ali o próprio Estado abriu a lacuna necessária para eles. Se eles ofereceram proteção ao povo, é porque o Estado ali não proporcionava segurança; se eles fizeram a economia das drogas girar, é porque algum dia o Brasil desistiu de fazer dali um campo de produção de PIB; se as crianças ali são logo educadas em como empunhar fuzis, é porque nalgum momento a escola deixou de existir para aquelas pessoas. As favelas deixaram de ser Brasil porque o Brasil se ausentou das favelas.

É certo que do jeito que a situação ficou nesses locais, não havia saída a não ser guerrear para retomar o espaço perdido pra bandidagem. Mas a pergunta que fica é: e agora? O Estado não quer que ali seja território de um poder paralelo, que lucra com a morte e exploração do resto da população; mas será que o Brasil – representado pelos seus governantes – querem que ali seja território brasileiro? Será que há interesse em proporcionar àquelas pessoas que lá moram tudo o que a Constituição exige? Desde Pereira Passos e sua “higienização urbana” que aqueles seres humanos não são contadas como brasileiros, não são vistos como cidadãos, não podem reivindicar seus direitos por não ter nem um endereço formal. Agora que a bandeira brasileira tremula sobre suas cabeças, poderão elas também passar a se considerar filhos dessa pátria amada?

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