Ação de Graças: agredecendo por quê?

Semana passada finalizamos mais um Ano Litúrgico na Igreja Católica. Começamos agora o tempo do Advento, a espera para o Natal de Nosso Senhor. Mas ainda quero falar do fim do ano, onde – pela Tradição da Igreja – reflete-se sobre o fim dos tempos, a chamada escatologia. E depois de ler muito o Apocalipse de São João, vivemos na última quita-feira do ano o Dia Nacional de Ação de Graças. Este é um costume importado dos Estados Unidos, do protestantismo, já que o costume da Igreja é celebrar várias vezes as “ações de graças” no decorrer dos meses. Mas vale a pena pararmos sobre ele para refletir sobre como agradecemos a Deus em nossa existência.

Momentos em que percebo pessoas agradecendo a Deus: antes das refeições, nas novenas e rezas depois de graças alcançadas (muitas vezes por intermédio de um santo), na devolução do dízimo, depois da comemoração de um gol. Parece brincadeira, mas é a verdade visível; mais importante que esse momentos (muitas vezes ligados ao sucesso material) são as preces de agradecimentos silenciosas que ninguém vê: todo crente é convidado a fazer isso ao menos uma vez por dia. Mas e aí, se agradece o quê? Pela família, pela cama para dormir, pelo cobertor nas noites frias (e pelo ventilador nas noites quentes), por se ter um emprego, por se ter um esposo/esposa decente, etc. Há algo mais do que isso?

Sim, há: deve-se agradecer pela vida, algo que passa silencioso no nosso dia-a-dia, mas é a base de tudo. Ora, se não existisse vida, como poderíamos fazer todas as outras coisas? Certamente que com a crença fiel no evolucionismo autônomo muita gente hoje pensa que vive por uma ironia do destino. Mas será que é mesmo assim, tão simples? Basta um olhar em torno, percebendo nossos companheiros vivos do planeta Terra: todos com sua existência sem sentido; vivem por viver, sem saber porquê. Usufruindo dos avanços da astronomia, nossa vida fica ainda mais especial: não encontramos nada parecido por enquanto no universo. Vida desse jeito – criativa, amorosa, edificante – só a humana. Sinto-me especial por isso.

Rapidamente vem o chato na minha direção e questiona: “desde quando a vida humana é criativa, amorosa e edificante? Estamos destruindo tudo, espalhando o ódio e a desordem no planeta”. Não pensa ele que é neste ponto mesmo que quero chegar: o homem só pratica as injustiças que nós conhecemos exatamente pelo fato de desprezar a vida que tem. Nas guerras, vidas humanas são apenas números descartáveis nos campos de batalha; na pobreza, a vida de uns vale mais que a de outros; na peste, a vida não é nada mais que aglomerados de seres quase-vivos. Ah, se a humanidade refletisse o dom maior que é exatamente ter dons, e viver para tê-los, multiplicá-los e utilizá-los da melhor maneira!

Perceber a vida humana como algo tão raro e ímpar é um dos fundamentos daquele que crê em Deus e que desmoraliza os ateus e agnósticos: isso tudo não pode ser obra do acaso. Resta a nós agradecer por fazermos parte dessa obra maravilhosa. Agradecer não só verbalmente, mas valorizando com nossos atos a vida humana de qualquer lugar, nível social e situação. Atentar contra a vida não é só fazer guerra, permitir a pobreza e compactuar com as doenças, coisas que grandes líderes deveriam lutar para resolver; desprezar a vida é permitir o aborto e a eutanásia, morte de inocentes, e a pena de morte, morte de pecadores como eu e você; mas também todas as vezes que agimos para diminuir o outro, acreditando que aquela pessoa não vale tanto quanto nós; é – principalmente – quando não valorizamos suficientemente nossa própria vida, relativizando-a, flagelando-a e prostituindo-a por livre e espontânea vontade. Fugir disso é verdadeira ação de graças.

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