Arte na Lata de Lixo

A arte é uma das formas mais sublimes de expressão humana; o artista, alguém ímpar que consegue fazer coisas que ninguém faz, ver tons onde ninguém vê, ouvir sons que ninguém ouve. Certamente se não houvesse a arte na história e no cotidiano do homem, ele não seria o mesmo – seria incompleto. As pinturas nas paredes das cavernas comprovam que a expressão artística é mais antiga do que a própria fala do ser humano; mas como tudo nos tempos atuais, está sendo deturpada pelo liberalismo moral dos nossos tempos. A revolução de valores que invade o século XXI com cara de década de 70 abala a arte de forma única: uma porcariada sem sentido que envolve as artes plásticas, a música, o cinema,  buscando apenas chocar e nada mais. Alguns choques são bons para nossa vida, outros, nem tanto. É disso que fala João Pereira Coutinho na sua coluna de hoje. Não vi ainda o filme “Cisne Negro”, mas sei exatamente do que ele está falando. Isso seria “arte contemporânea”. Se esse é o nosso tempo, voltem-me para o século XII.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

A arte da masturbação


Ao confundir arte com a arte da masturbação, tudo que resta de “Cisne Negro” é um ecrã viscoso e sujo


SEJAMOS HONESTOS: o filme “Cisne Negro” promete ser revolucionário. Não na história do cinema. Mas no ensino da dança. A partir de agora, os cursos de dança terão de reformular os seus currículos. Sim, “Improvisação”, “Estudos de Movimento” ou “Estudos de Repertório” continuarão a ser importantes.
Mas, na douta filosofia de Darren Aronofsky, diretor do filme, é preciso incluir novas classes. Como “Técnicas de Masturbação”, por exemplo. Ou, então, “Dildos e Opiáceos”, provavelmente para que os finalistas possam entrar na vida profissional em estado de transe.
Esse, pelo menos, é o entendimento de Thomas (Vincent Cassel), o coreógrafo da companhia de bailado onde Nina (Natalie Portman) vai estrelar uma nova produção do “Lago dos Cisnes”.
Mas Nina tem um gravíssimo problema: nunca transou. Tecnicamente, é perfeita; mas o fato de ainda ter o hímen intacto a impede de protagonizar o “cisne negro” com a intensidade perversa que o papel exige.
Felizmente, Thomas tem uma ideia. Não, como seria de esperar, ele mesmo ser voluntário para aliviar Nina da sua trágica deficiência, uma proposta perfeitamente compreensível: quem, em juízo perfeito, nunca teve pensamentos impuros com Natalie Portman, a encarnação terrena mais próxima de um anjo? Não atiro a primeira pedra.
Mas Thomas não tem pensamentos desses; o seu amor à arte suplanta o amor a Nina. E a arte merece que Nina vá para casa e experimente tocar-se no conforto dos lençóis (cor-de-rosa). Em cinema, já assisti a tudo. Até aos filmes de Manoel de Oliveira. Mas a sequência em que Nina se masturba é tão esteticamente grotesca que seria aconselhável distribuir sacos de enjoo nas salas.
Como é evidente, Nina não acaba bem: sexualmente reprimida e com a sanidade se desfazendo, ela não aguentará a competição direta de uma rival, Lily (Mila Kunis). Lily dança bem. Mas, ao contrário de Nina, oferece o serviço completo.
Quando saímos da sala, choramos pelo destino de Nina. E pensamos: “Coitada. Se ela ao menos tivesse transado…”.
Eis, em resumo, o filme de Aronofsky, um diretor que, antes de “Cisne Negro”, tinha assinado um filme estimável sobre luta livre. Um tema que estava mais ao nível da sua mentalidade.
Acontece que os seres humanos raramente aceitam suas limitações e desejam voar mais alto. Aronofsky tenta. Nunca chega a decolar.
Porque Aronofsky acredita que a “loucura da arte”, na feliz sentença de Henry James, pode ser resumida ao clichê expressão/repressão, que domina grande parte das discussões analfabetas do nosso tempo.
Herdeiros de uma sensibilidade romântica abastardada, acreditamos que a arte deve ser “autêntica”, e que a “autenticidade” consiste em abrir as comportas da alma, despejar os nossos “sentimentos” e “emoções” na via pública e, por via dessa catarse, nos libertarmos das nossas neuroses pessoais.
Segundo essa doutrina, a arte não é arte, é terapia. Um romance não é um romance, é uma sessão de psicanálise por escrito. E o artista não é um artista, é como um doente mental que vive no asilo psiquiátrico e que pinta, ou escreve, por motivos estritamente terapêuticos, antes da medicação noturna. Visitar grande parte dos nossos museus, dos nossos palcos ou das nossas estantes é tropeçar continuamente nessas alegres pornopopeias.
Tragicamente, Aronofsky e companhia ignoram que a arte não é questão de expressão ou repressão, mas de disciplina e sublimação.
Para retomar as palavras de T.S. Eliot, a criação artística é um exercício de autossacrifício em que, para expressar uma personalidade, é necessário primeiro extinguir a personalidade. E encarar o processo criativo como o momento sacramental em que elevamos o que somos, o que não somos e o que gostaríamos de ter sido a um patamar sublime.
Se a sensibilidade de Aronofsky não estivesse tão próxima de um neandertal, ele teria percebido que, no caso de Nina, era precisamente a sua complexidade feita de repressão e temor, mas também de graciosidade e sede de perfeição, que faria dela uma incomparável artista.
Ao confundir a natureza da arte com a arte da masturbação, tudo que resta de “Cisne Negro” é um ecrã viscoso e sujo. Como um lençol de adolescente.

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