Quem se esqueceu de quem?

Disse Sião: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!” Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquercer, eu, porém, não me esquecerei de ti. – Is 49,14s

Ler a passagem acima já proporciona um questionamento interessante: não estamos hoje vendo centenas de casos todos os anos de mães que abandonam seus filhos em sacos plásticos, cestos de lixo, beiras-de-rio, na porta da casa dos outros? Não colhemos no noticiário uma série infinita de notícias de pais e mães que violentam os filhos de todas as maneiras possíveis? Não estão por aí dezenas de grupos de “mulheres com direito de escolher”, que se acham na função de questionar se uma nova vida que está em seu ventre merece ou não viver? Nos lares, nas escolas, nas ruas: a relação dos adultos com as crianças não está em sua melhor fase. Não que já tenha sido boa, mas o momento é pior. Como podemos espelhar o amor de um Deus Pai num ambiente desses?

O que domina, então, é a crença de que Deus não está mais no mundo, deixou tudo desandar como a maionese que fica fora da geladeira. Afinal, todos nós acreditamos em Deus, num criador, num princípio de tudo – vide os ateus que tem de lutar bravamente para provar a si mesmos a não existência dEle. Gritamos contra os céus quando acontecem desastres naturais, guerras e outros tipos de calamidade. “Como pode Deus deixar uma barbárie dessa ocorrer?”, perguntam os indignados. A questão fundamental é: nenhuma religião da história da humanidade citou um Deus que tutelasse os homens como formigas num criadouro de criança. Quem criou essa ideia foi exatamente a raça humana, ávida que sempre foi de se eximir das culpas dos males criados por nós próprios.

Criamos em nossa consciência uma vida totalmente guiada, cravada na ideia de “destino”, onde tudo que ocorrerá está escrito. Posição muito confortável para um povo que briga – literalmente – pra conseguir se organizar e viver. Luta-se, inclusive, pela paz. Mata-se pela vida. Odeia-se pelo amor. E Deus nisso tudo? É aquilo que está fora de moda, o ultrapassado, do milênio passado, o “ópio do povo” que nos impede de enxergar a verdadeira luta que devemos travar, essa guerra incansável que já citei. Vivemos numa síndrome de velhos gregos, que criavam deuses com paixões humanas, que faziam da terra apenas a área de lazer do Olimpo. Queremos que as paixões humanas que não conseguimos brecar sejam a regra geral do mundo, uma narquia que nos leva mais e mais à autodestruição, ao ódio.

E Deus nisso tudo? E Jesus Cristo, Aquele que morreu na cruz “por nós e por todos”? Como fica Ele? Num altar afastado da realidade humana, procurados apenas para curar as enfermidades em shows de milagres realizados em ginásios mundo afora? Não, Ele não nos abandonou. E continua olhando tudo isso, certamente entristecido, mas ciente de que ninguém deve se dirigir a Ele por pressão ou a contragosto. O livre-arbítrio é parte inalienável do Amor! Ele está à nossa espera, não nos esqueceu. Deseja que coloquemos nossa confiança nEle, e não nos pais que podem – ou não, tomara! – nos abandonar. Seu cuidado vem numa linguagem que o homem esquece, mas sabe falar: do Amor, do Perdão, da Compaixão, da Paz. Todo dia, quando acordo e vejo o dia raiar, penso: obrigado, Senhor, por não ter se esquecido de nós!

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