Como montar um país

Num mundo de 7 bilhões de pessoas é impossível pensar numa vida livre, nômade e natural como a dos índios tupi-guarani; é necessário se organizar, construir tecnologias, produção em série de alimentos, um Estado que resolva os problemas, fazendas delimitadas, empresas para se trabalhar. Fica cada vez mais difícil crer num “comunismo”, tenha ele qual etiqueta for. A maneira de se organizar o povo, essa sim, é totalmente “da escolha do freguês”; ainda hoje no mundo temos monarquias, tiranias, ditaduras, locais sem Estado nenhum ou que estão em processo de montagem. As revoltas dos últimos meses no mundo árabe nos dão a noção do que há ainda no planeta: ainda existem Gaddafis que se acham a personificação do Estado! Se bem que também existem pessoas assim aqui também…

De tanta diversidade, ainda não inventaram nada melhor que a democracia, onde é o próprio povo – que é quem sofre e usufrui das consequências desse Estado – que controla o que deve acontecer. Se tem de ser representativa, culpa do mesmo excesso populacional já citado. Mas algo mais nos estão ensinando as reformas no Egito, Tunísia e Líbia: o “povo” sozinho talvez até consiga derrubar governos, mas não consegue criar uma nova ordem. É preciso organização, algo encontrado, por exemplo, nos exércitos nacionais, em muitos casos único refúgio para um período de transição nos países. Para refletir sobre tudo isso, um bom texto do New York Times, especulando sobre todas essas coisas. Fica a pergunta para nós: se reclamamos da nossa democracia, por que não nos organizamos e participamos mais ativamente do processo democrático?

 
Atirar ou desertar – o Exército decide

 O que faz os militares mudarem de lado quando um ditador balança

DAVID E. SANGER
ANÁLISE DO NOTICIÁRIO

Chega um momento em quase todos os regimes repressivos em que os líderes -e as forças militares que por tanto tempo os mantiveram no poder- precisam fazer uma escolha geralmente sem volta: mudar de lado ou começar a atirar.
Na Líbia, os militares parecem divididos na sua lealdade ao coronel Muammar Gaddafi, e parte das forças de segurança teria aderido à oposição, enquanto outro grupo abriu fogo contra manifestantes.
Os militares egípcios, calculando que não valia mais a pena defender um faraó alienado de 82 anos, sem sucessor palatável e sem plano convincente para o futuro, acabaram se aliando aos manifestantes nas ruas.
Ignoraram o conselho saudita, que, em telefonemas a Washington, disseram que o ditador Hosni Mubarak deveria abrir fogo se fosse necessário, e que os americanos deveriam parar de falar em “direitos universais” e apoiá-lo.
Já as forças do Bahrein, bem menos disciplinadas, decidiram afinal que a vizinha Arábia Saudita tinha razão. Do Egito, tiraram duas lições: se Obama ligar, bata o telefone. E atire logo.
Em ambos os países, como em quase todos os Estados policiais, a chave da mudança está com os militares. E, como em qualquer instituição com interesses próprios, cabe aos líderes militares se perguntarem: o que a gente ganha?
Os militares egípcios, com seus interesses empresariais, para não falar da ajuda dos EUA, exigiram uma transição que preservasse seu poder, mas permitisse a Washington proclamar uma reforma gradual e substancial.
No Bahrein, por outro lado, os militares decidiram ignorar o conselho do presidente Obama, que encararam como suicídio assistido.
(…)

O Egito certamente começou assim, com batalhas entre manifestantes e policiais nas ruas, e uma invasão de capangas para dispersar a oposição na praça Tahrir. Mas as autoridades americanas, lembrando-se de conversas com colegas egípcios, souberam, aos oito dias de crise, que os dias de Mubarak estavam contados, quando os militares deixaram claro que simplesmente não disparariam contra o seu próprio povo.
“Ficamos repetindo o mantra: ‘Não rompam o vínculo que vocês têm com o seu próprio povo'”, disse um alto funcionário americano envolvido nas negociações.
As autoridades americanas acham que suas palavras foram persuasivas em grande medida por causa das profundas relações entre os militares dos dois países.
Os 30 anos de investimentos valeram a pena na hora em que generais, cabos e oficiais de inteligência discretamente ligaram ou mandaram e-mails para amigos com os quais haviam treinado.
Mas agora vem a parte mais complicada: fazer os militares cumprirem suas promessas de permitir que um governo civil floresça.
Isso vai significar que os militares abram mão do seu monopólio do poder, o que não é fácil para uma instituição profundamente presente na economia nacional -característica que tem em comum com o Exército de Libertação Popular da China.
A questão é se os militares podem gerir uma transição do Egito para a democracia, assim como fizeram os militares da Coreia do Sul, Indonésia, Filipinas e Chile.
(…)

No Bahrein, os militares disseram ao Pentágono que jamais permitiriam que os xiitas assumissem posições importantes.
“Disseram-nos que os xiitas seriam todos espiões do Irã”, disse um ex-alto funcionário do Departamento de Defesa.
Então, quando os protestos começaram, os militares decidiram que, se não atirassem, não teriam futuro: a maioria xiita assumiria. Os líderes militares apostaram no rei Hamad bin Isa Al Khalifa. No dia em que seu filho, o príncipe regente Salman, foi colocado à frente de um “diálogo nacional”, as tropas abriram fogo outra vez.
Abderrahim Foukara, diretor da sucursal do serviço árabe da Al Jazeera em Washington, disse que as consequências da repressão são previsíveis.
“Quando você atira em mulheres e crianças às 3h da manhã, pode conseguir se aferrar ao poder por um tempo, mas qualquer senso de legitimidade vai embora”, disse ele.
Mas outros diziam a mesma coisa quando o Exército Popular de Libertação da China abriu fogo na praça Tiananmen, em 1989.
Hoje, o Exército tem interesses disseminados e está tão rico e poderoso que a maioria dos líderes chineses não se dispõem a desafiá-lo.

Fonte: Folha de S.Paulo – 28/2/2011

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