Pelos caminhos da vida…

Não acredito em destino, e acho completamente estúpido quem acredita. Qual a função da vida se tudo já está delimitado e escrito? Agora, como bom católico, creio que Deus já sabe o futuro; e isso é muito diferente do futuro já estar definido! Mas não entrarei nessa especulação filosófica aqui. Só penso que não devemos acreditar que “o que é pra acontecer acontecerá”; mas devemos sim pensar que Deus prepara nossos caminho: se escolhemos o que ele indicou ou não, paciência. Cunhei uma frase dia desses: “a Divina Providência é a ação de Deus pelo livre-arbítrio do homem”. Não a investiguei muito teologicamente, mas soou bonito. Aprendamos então com as oportunidades da vida, com o que parece acaso, mas pode não ser. É disso que trata a coluna do João Pereira Coutinho na Folha de hoje. Uma bela crônica. Ali, fala-se de relacionamento amoroso, mas vale pra todas as áreas da nossa existência.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

A outra


A outra aproximou-se, sozinha, e ele perguntou pela amiga. Não havia. Não tinha podido vir


O RAPAZ convidou as duas amigas. Para que o visitassem na cidade do Porto, sua terra natal. Um dia, uma tarde. Elas agradeceram o convite e prometeram pensar no assunto.
Ele entrou no carro, partiu e, enquanto cruzava as ruas de Lisboa, pedia a todos os santos para que só uma delas fosse ao seu encontro. Recriminou-se mentalmente por ter feito um convite duplo quando era a mais nova, a mais bonita, que ele desejava receber. Mas não tivera outra oportunidade e, perdido por dez, perdido por mil: para receber uma, teria que receber as duas. Era um começo.
Na semana seguinte, chegou a mensagem: iriam ambas, sim, em dia a combinar. Ele leu. Releu. Respondeu: que estaria à espera na estação de trem; que iriam almoçar, conhecer a cidade, beber e, com sorte, talvez a outra se cansasse de ser a outra e preferisse ficar no hotel. No amor e na guerra não há pensamentos nobres. Ou qualquer coisa assim.
Chegou o dia. Chegou o trem. Ele já estava na estação, junto à linha, encostado a um dos pilares. Saíram os primeiros passageiros, cabeças indistintas sob uma chuva outonal. Ao fundo, vislumbrou a outra. Acenou. Recebeu um aceno de volta. Ninguém mais acenou.
A outra aproximou-se, sozinha, e ele perguntou pela amiga.
Não havia amiga. Não tinha podido vir, disse-lhe a outra, razões pessoais, familiares, sentimentais, ele já nem escutava.
Com gentileza mecânica, pegou na sacola da outra, disse uma frase clichê (“Muito bem, estamos nós aqui, vamos aproveitar.”) e arrastou-a para fora da estação.
Entraram no carro. Ele silencioso e a outra a preencher o silêncio com conversa banal. Começaram o passeio. Ele começou a debitar informações turísticas como se fosse um guia turístico: aqui, um monumento; ali, uma igreja; mais ao fundo, um jardim, um museu, uma livraria.
Entraram na livraria. A outra demorou-se pelas estantes. Ele ficou junto à entrada, a olhar para o relógio, a contar os minutos para que a noite viesse e a outra se fosse.
Caminharam pelas ruas da baixa. A outra fazia perguntas que ele só respondia à segunda vez, quando realmente as escutava. Por vezes, apercebia-se que a outra ficava para trás -um metro, dois- porque ele caminhava demasiado depressa. Então, ele parava, esperava, e retomavam a marcha até que nova distância se instalasse entre os dois.
Foi nas margens do rio que a outra resolveu parar. Ele perguntou se ela estava cansada. A outra sorriu com ironia e respondeu: “Podes dizer que sim”.
Ele gelou. Desconversou: que poderiam sentar-se na esplanada, descansar, tomar um café. A outra preferiu sentar-se no cais e tirar um cigarro do bolso. Acendeu-o. Pausa longa. E depois disse-lhe: “Quero apenas que me leves à estação, por favor”.
Ele gelou novamente. E desconversou novamente: que se passava, perguntou, acontecera alguma coisa? Ele fizera alguma coisa?
A outra recusou-se a comentar o óbvio. Olhou-o apenas com desprezo e murmurou: “É pena que não tenhas reparado que fui eu quem veio ter contigo”.
Ele olhou para ela pela primeira vez naquela tarde, pela primeira vez em todas as tardes, como se a frase o tivesse despertado. Havia uma presença real ao lado dele; uma presença discreta, e também por isso discretamente bela, que fumava às pressas para não chorar.
Ele sentia vergonha e nada disse. E também ternura e também desejo. A outra levantou-se e, sem esperar por ele, caminhou para o carro. Ele seguiu-a -um metro, dois metros atrás dela.

 

O trem partiu às sete da noite. E, ainda hoje, nos jantares de amigos, ela gosta de contar a história de como o idiota do rapaz lhe disse um adeus mudo na plataforma da estação. E de como ele lhe voltou a aparecer de repente na carruagem onde ela seguia sozinha, de volta. E de como se sentou ao lado dela. E de como se preparava para falar. E de como ela o impediu de dizer uma palavra que fosse, encostando os seus lábios aos lábios dele. E de como os outros passageiros se riram daquela cena patética. E de como se riram ainda mais quando o revisor surgiu minutos depois e o idiota do rapaz não tinha bilhete para apresentar.
Fonte: Folha de S. Paulo – 1/3/2011

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