O que vale no carnaval?

O carnaval surgiu na Itália do século XII ou XIII, pelo que sei. O objetivo era muito claro: nos dias que antecediam a Quarta-Feira de Cinzas, data do início do período de meditação e penitência católico chamado Quaresma, o povo saía pras ruas, permitindo-se festar e passar de todos os limites, que nos próximos 40 dias iam ser severos. No âmbito religioso é meio esquisito, já que a questão correta seria renunciar o pecado, e não cometê-los agora sabendo que haveria perdão na próxima semana. Mas, como todo brasileiro, gosto de carnaval; não há país no mundo onde a festa tenha encontrado mais identidade do que aqui. Pensando bem, sou mais fã do samba, ritmo do carnaval do sudeste; a festa em si, não me envolvo há mais ou menos 15 dos meus 21 anos. Mas observo atentamente seus contornos.

Lembro-me do livro “Anarquistas, Graças a Deus” escrito por Zélia Gatai; nele ela contava que o bom carnaval de São Paulo na década de 30 era ao lado da sua casa, na Avenida Paulista, mas seu pai não autorizava sua participação, por discordar do objetivo da festa, o “carne vale”, o que vale é a carne. Como anarquista, ele era ateu, mas pensava que era uma objetização do ser humano, talvez não com essas palavras. Passados quase cem anos dessa época, os anarquistas nem existem mais como classe organizada, mas a questão do carnaval continua parecida. Quantas passistas não desfilam praticamente nuas como se fossem pedaços de filé no açougue? E quantos preservativos não são distribuídos como se fosse o brinquedo principal dessas épocas?

Paremos um pouco na discussão do preservativo, a camisinha. Gostaria de analisá-lo um pouco além da questão das doenças transmitidas (o que o lado “científico” discute) e o do uso abusivo do sexo (o que o lado “moral” diz). Penso assim: a relação sexual não é algo naturalmente mau, até mesmo por ser natural; mas não é tão corriqueiro ou explícito quanto parece, pois senão não daríamos as mãos por aí, mas sim outra parte do corpo. Pois bem, se o sexo – algo tão íntimo e pessoal – é vendido com a ideia “coloque esse plástico no seu ‘amiguinho’ e tudo está resolvido”, não estaríamos caminhando para algo do gênero em todos os aspectos das relações sociais? “Antes de beijar seu parceiro, use a ‘camisinha de boca’ pra evitar doenças… vai saber por onde ele anda!” ou “Se for cumprimentar alguém, use as luvas esterilizadas, pois ninguém sabe o que ele pegou…”. Estranho, não? Poderíamos nos envolver num “camisinhão” ou numa roupa de astronauta, como naquela propaganda de repelente de insetos.

Fico então num impasse: de um lado, uma festa que parecia ser a confraternização nacional, onde todos se permitem momentos de alegria e compartilham sorrisos, esbanjando graça; do outro, a predominância de relações vazias, praticadas como se fosse algo mecânico, fugaz e superficial, de aparência mesmo – e não falo só do sexo. O que era pra ser união de pessoas, se mostra – numa análise mais profunda – algo que separa e torna todos mais distantes, seja pela bebida e outras drogas, pelas permissividades e excessos em geral. Sem falar dos aborrecimentos que acontecem no decorrer da festa, muito pouco noticiado por aí: brutalidades, violências, explorações das pessoas, agressões físicas, morais e psicológicas, exposição de preconceitos, contra o sexo feminino, os pobres, os homossexuais, etc.

Talvez quando eu pensei na ideia do “Feliz ‘diaversário'” – como que para vivermos cada dia de nossa vida completamente, adicionando nele tudo que precisamos – muitos tenham pensado que seu “diaversário” perfeito seja de carnaval, ou seja, viveríamos felizes se estivéssemos numa eterna festa dessas proporções. Será mesmo? Nisto mostra-se a relação perversa da modernidade, que tanto vejo na minha geração, mas presente sempre na história do mundo: quanto mais as pessoas se apertam e se amassam, mais distantes elas se tornam; mais união em torno da bebida, menos importância pras questões vitais do mundo; quanto mais paixões arrebatadoras, menos amor (aquele mesmo, que tem misericórdia, compaixão e busca a paz). Que as festas deste fim de semana nos façam pensar melhor como anda o carnaval de nossas vidas.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Lazer, Viagens

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: