As tentações do deserto da vida

Naquele tempo, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. – Mt 4,1

Passado o carnaval, inicia-se – com a Quarta-Feira de Cinzas – a Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa, que se relaciona ao trecho do Evangelho de São Mateus acima. São quarenta dias de revisão de nossas vidas e penitência, tendo em vista o que podemos encontrar presente no nosso cotidiano e precisa ser – no mínimo – melhorado. Mas poderia-se dizer que vivemos numa grande quaresma, onde caminhamos por um deserto dia após dia, sempre à espera do Dia do Senhor, podendo fazer uma analogia à Terra Prometida dos judeus. O mundo é um grande deserto, seco de Amor, compaixão e paz, e cheio de guerras, ódio e – principalmente – tentações para que façamos parte dessa festa fúnebre.

Utilizando-me do restante do trecho acima citado, arrisco a ver de uma maneira particular as tentações que Jesus sofreu, guiado pelo Espírito, para que nós pudéssemos tê-lo como exemplo e guia. Já fiz isso antes, mas reflito novamente nestas palavras tão cheias de significado. Primeiro, a tentação do pão: Jesus tem fome, e o diabo lhe propõe que transforme aquelas pedras em pão, para que pudesse se alimentar. A resposta é “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. O mundo atual é particularmente eficaz nesse tipo de tentação: os meios de comunicação, a cultura, as próprias pessoas, nos abordam o tempo todo oferecendo pedra como se fosse pão, para que vivamos daquilo ali e nos esqueçamos do único Pão da Vida.

Depois, o diabo propõe mais um desafio: “lança-te daqui abaixo! (…) Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos”. Se aquele era o pecado do corpo, este é o pecado do espírito do homem, a má utilização do que o coração humano tem de melhor: a fé. O deserto do mundo quer nos convencer de toda maneira que a fé é apenas um instrumento para que nossa vida melhore, para que nossas doenças sejam curadas, para que não precisamos nos preocupar com algumas coisas de nossa vida. “Deus é que trabalha para o homem, e não o contrário!”, dizem eles. E nós nos convencemos, buscamos satisfazer nossos próprios desejos de uma maneira insensível e desavergonhada. A resposta certa é dada pelo Cristo: “Não tentarás o Senhor teu Deus”.

Finalmente, o maligno leva Jesus para o mais alto dos montes, donde se avistava todos os reinos do mundo, e diz que TUDO seria dEle, se ali Ele se prostasse e o adorasse. É a tentação da mente, do poder, de ser o maior, mais poderoso, mais inteligente, mais esperto, mais rico. É o espírito da concorrência, onde todos são jogados sem piedade, tendo que se encaixar nas regras do jogo, adorando coisas inanimadas, aprendendo que é o dinheiro que manda, que ele “não traz felicidade; manda buscar”. É a essência humana decaída: querer ser como Deus. E Cristo, na última das suas negativas, nos dá o sentido da realidade: “Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a Ele prestarás culto”. Somente a Ele.

Não é tão difícil perceber estas verdades. Penso que as pessoas têm em seu íntimo a noção do que é bom e o que é mal, do que vale a pena ou não no mundo. Chega a ser senso comum que “caixão não tem gaveta”. Mas mesmo assim nós caímos nessas armadilhas; nos alimentamos de pedras, desafiamos a Deus e queremos conquistar o mundo. Como sair disso e viver uma vida verdadeira, sem essas enganações? Fazendo como Cristo: olhando a cada dia e a cada momento apenas para o Amor de Deus, sem desviar o olhar. É na difícil constância de “ser fonte” que se vence a secura do deserto.

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