Desastres naturais são desastres… naturais

Na semana passada, todos fomos pegos de surpresa pelo terremoto/maremoto no nordeste do Japão. As tecnologias de comunicação deixam o espetáculo ainda mais aterrador: quando vi as primeiras imagens que chegavam do outro lado do mundo, fiquei boquiaberto, sem reação. 9,0 na escala Richter? Centenas de milhares de desabrigados? Outras dezenas de milhares de mortos? Nada disso seria tão escandaloso se não fossem as imagens, com um tom de “ao vivo”. É muito triste. E a culpa, é de quem? Vivêssemos na Idade Média, sem muito conhecimento científico, diríamos que tem a ver com Deus; fôssemos índios diríamos que é a mãe natureza. Mas hoje só podemos dizer: é da natureza do mundo, a história das placas tectônicas e tal. João Pereira Coutinho nos aconselha hoje: não coloquemos a culpa em ninguém, nem em Deus, nem no efeito estufa. A hipervalorização atual da natureza pode refletir num agnosticismo ecológico amanhã. Pensem nisso os adoradores de um deus verde por aí.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Deus é verde


É um silêncio de resignação e horror. Nada há a dizer ou a explicar, exceto enterrar os mortos e cuidar dos vivos


O TERREMOTO de Lisboa de 1755 não foi apenas um terremoto. Foi uma trágica, devastadora e assaz perfeita confluência de desastres. A terra tremeu. O fogo veio a seguir e devorou as casas. Finalmente, o mar devorou a cidade.
Foi então que a inteligência europeia, com Voltaire à cabeça, formulou uma questão básica sobre a matéria: como é possível que Deus tenha permitido semelhante barbaridade? As palavras de Voltaire correram a Europa e “Lisboa”, a palavra, ganhou ressonâncias malignas que só “Auschwitz” acabaria por ter no século 20.
Mas a inquietação de Voltaire não foi a única. Como explica Susan Neiman num brilhante tratado sobre a história filosófica do mal (“Evil in Modern Thought”, Princeton University Press, 358 págs.), o terremoto de Lisboa não se limitou a ser pasto para o racionalismo dos “philosophes”. O terremoto, em suma, não mostrava apenas ao mundo a crueldade de Deus ou até, no limite, a Sua inexistência.
Para os anti-iluministas, provava o contrário: a justiça e a onipotência divinas sobre uma Humanidade corrupta e pecadora. O terremoto era um castigo de Deus sobre a licenciosidade dos homens.
E nem mesmo as diferentes sensibilidades religiosas da época escaparam às suas guerras privadas. Para os jansenistas, era um castigo sobre uma “cidade jesuíta” onde a Inquisição ainda funcionava. Para os jesuítas era o oposto: um castigo divino precisamente porque a Inquisição não funcionava com a dureza e a regularidade aconselháveis.
O italiano Gabriel Malagrida foi um dos rostos mais conhecidos desse fervor religioso e, um ano depois do terremoto, ainda pregava aos lisboetas que se arrependessem dos seus pecados e se preparassem para o Juízo Final. O terremoto do ano anterior fora, digamos, um mero aperitivo. O prato principal ainda estaria para vir.
O mundo acabou, é certo. Mas apenas para Malagrida, queimado pouco depois como herege num apropriado auto-de-fé. Conta a mesma Susan Neiman que a morte de Malagrida marcava também o fim de uma era que via nos “males naturais” uma expressão dos “males morais”. Nas clássicas palavras do marquês de Pombal, a única resposta possível perante o terremoto era “enterrar os mortos e alimentar os vivos”. Meditações teológicas para que, quando havia pestes e fomes a evitar? Os mortos foram enterrados. Deus também: os “males naturais” passaram a ser imprevisíveis, contingentes, inexplicáveis. E sobre eles passou a repousar um silêncio de resignação e horror.
É esse silêncio que a maioria observa com as imagens do Japão e a sua particular confluência de desastres. Nada há a dizer, nada há a explicar, exceto enterrar os mortos e cuidar dos vivos.
Mas há quem resista. Leio na imprensa do dia que o presidente do European Economic and Social Committee, órgão consultivo da União Europeia com certa importância “científica”, aproveitou o momento para questionar se a catástrofe japonesa não seria um resultado do aquecimento global ou, como hoje se diz e uma vez que o mundo deixou de aquecer desde inícios do século 21, das “alterações climatéricas”. Nas palavras do preclaro Staffan Nilsson, talvez a natureza esteja a falar conosco. Não deveríamos ouvi-la?
Não foi caso único: jornais e televisões foram invadidos por iguais interrogações, normalmente vertidas por políticos e fanáticos da causa ambientalista. A natureza, na visão dessa gente, não pode ser imprevisível, contingente, inexplicável. Como, na verdade, sempre foi ao longo da história. Isso seria um insulto para a nossa patética soberba.
Se o Japão ficou parcialmente destruído, existe uma causa última. E na impossibilidade de a causa ser um deus monoteísta, talvez as respostas se encontrem num deus panteísta: uma mãe natureza indignada com os abusos dos seus filhos, que resolve assim puni-los de forma brutal para que eles deixem de cometer pecados contra ela.
Enganam-se os que pensam que o espírito de Malagrida morreu nas chamas da Inquisição. Os fanáticos da causa verde apenas pintaram Deus com outra cor; mas a atitude mental é a mesma: a atitude de quem explica os “males terrenos” como um castigo dos céus. Ou, melhor dizendo, da Terra.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1503201115.htm

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