Ditadores amigos, ditadores inimigos

A atual guerra travada na Líbia entre as tropas do coronel Gaddafi,  as forças rebeldes do leste e a coalizão ocidental encabeçada por EUA e França pode produzir uma série de reflexões importantes acerca de geopolítica do mundo. Muitas vezes reclamamos do nível da política brasileira, levada simplesmente pelos interesses, deixando as ideologias de lado; ao olharmos para essa situação do norte da África, porém, veremos que os grandes figurões políticos mundiais não agem de maneira muito diferente. Tudo bem que Gaddafi estava matando pessoas “a rolê” num confronto que virara guerra civil, mas qual é o parâmetro para que isso seja resolvido com ataques de forças estrangeiras? Não existem mundo afora inúmeras outras ditaduras repugnantes que mereciam o mesmo desfecho? E não era Gaddafi amigo de tantos líderes europeus e latino-americanos até então? Por que as mudanças? Seriam os holofotes da imprensa? Interesses econômicos? Medo da opinião pública? Para essas reflexões, uma boa coluna hoje do New York Times.

INTELIGÊNCIA/ERHARD STACKL

Lições de um ditador

Líderes europeus se aproximaram dos ditadores

Viena
Poucos dias antes de uma coalizão de potências ocidentais e árabes começarem os ataques aéreos para defender os rebeldes da Líbia, um revelador vídeo no YouTube se tornou viral. Ele mostra o coronel Muammar Gaddafi, tirano da Líbia, apertando as mãos e abraçando estadistas europeus como Nicolas Sarkozy, presidente da França, Tony Blair, ex-premiê da Grã-Bretanha, e, com especial carinho, o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi. O vídeo era acompanhado pela melosa canção “Save Your Kisses for Me” [guarde seus beijos para mim].
Não muito tempo atrás, vários líderes europeus pregavam valores democráticos aos domingos e, durante a semana, faziam vultosos negócios com o ditador. Agora, numa guinada espetacular, eles proibiram o embarque de armas para Gaddafi e congelaram seu patrimônio nos bancos europeus. Vendo que isso não iria dissuadir o governante líbio de bombardear seu próprio povo, as principais potências europeias -com exceção da Alemanha- se engajaram numa ação militar antes mesmo de os EUA declararem que estavam prontos para aderir.
Em contraste com conflitos anteriores, especialmente o do Iraque em 2002, os europeus continentais não insistiram no uso do “soft power” ou de soluções negociadas. Com a ajuda americana, eles esperam salvar os rebeldes da Líbia de serem eliminados pela máquina militar de Gaddafi.
A aventura na Líbia também salienta uma mudança no equilíbrio de poder europeu. A Alemanha, sempre decisiva quando foi a saúde do euro que esteve em jogo, ficou à margem. A França se lançou ao centro do palco.
Poucos meses atrás, o governo francês parecia alheio às mudanças fundamentais que estavam acontecendo no Norte da África. Depois dos infelizes comentários do chanceler francês sobre os manifestantes pró-democracia na Tunísia e da oferta de auxílio ao então ditador Zine el Abidine Ben Ali, Paris despertou para os apelos por democracia no Norte da África. Quando a Líbia explodiu, a França foi o primeiro país a reconhecer o governo provisório líbio, e Sarkozy tomou a iniciativa de impor uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia. Se essa postura vier a reverter a maré na Líbia, Sarkozy poderá assumir o protagonismo da política europeia. Como envolvimentos militares são muito impopulares entre o eleitorado alemão, a chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel não teve escolha senão agir como coadjuvante do governo francês.
Berlusconi cedeu à pressão interna e externa e fez talvez a mais radical das guinadas. A Itália, onde a Líbia tem quase US$ 10 bilhões investidos, bloqueou esse patrimônio. Berlusconi chegou até a oferecer bases militares da Sicília à recém-formada coalizão. No passado, Berlusconi lidava com Gaddafi por necessidade. Além de interesses petrolíferos importantes, ele tinha um acordo com a Líbia para conter o afluxo de milhares de imigrantes pobres da África em direção à Europa, via Itália.
A “Realpolitik” tem guiado a política da Europa para o Norte da África, mas talvez seja hora de rever essa estratégia. Líderes democratas se aproximaram de ditadores porque sentiam que estes ofereciam a melhor oportunidade de estabilidade na região, que serviriam de contrapeso ao fundamentalismo islâmico violento, e que, com o tempo, introduziriam reformas. Os jovens da região, que têm boa formação e reivindicavam uma vida melhor e mais livre, foram amplamente ignorados.
Hans-Dietrich Genscher, o venerado ex-ministro de Relações Exteriores da Alemanha, disse que governantes como o egípcio Hosni Mubarak, a quem ele tinha como amigo, não fizeram jus às expectativas e não conseguiram modernizar seus países.
Quase no fim da Guerra Fria, Genscher teve um papel importante na queda do Muro de Berlim, ao negociar com as ditaduras no império soviético e apoiar os movimentos democráticos. Agora, o Ocidente não deve fazer ouvidos moucos aos apelos por liberdade no mundo árabe, disse Genscher. Na opinião dele, seria arrogante supor que algumas nações estão despreparadas para o regime democrático.
O extremismo religioso e os conflitos étnicos podem ser ameaçadores no futuro. Mas uma coisa é certa: a cumplicidade com os ditadores provou-se errada não só em termos morais. Não importa quão firme pareça um ditador, a vontade do povo não pode ser deixada de lado.
Os cálculos que orientam a “Realpolitik” precisam ser revistos, para que as vozes dos adversários das ditaduras sejam consideradas legítimas. A queda de regimes autoritários no mundo árabe revela que seus fundamentos eram uma miragem.
Melhor se preparar agora para o próximo vulcão a entrar em erupção popular pela democracia, o que pode ser possível mesmo sob o regime brutal do Irã.


Erhard Stackl é ex-editor-executivo do “Der Standard”, de Viena, e autor do livro “1989 – The Falling of Dictatorships” [1989 – a queda das ditaduras].

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny2803201104.htm

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