Qual é o caminho para os prados repousantes?

O Senhor é meu Pastor, nada me faltará. Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes. – Sl 22(23),1s

O trecho do salmo acima é um dos mais conhecidos de toda a Bíblia: em qualquer porta de botequim, lá está ele. Tem certo tom de arrogância, ao menos da forma que  é proclamado por aí; em tempos de teologia da prosperidade, pode-se pensar que o cristão se acha acima de todo mal, que como “filho” de Deus, fiel e persistente na fé, não sofrerá nenhuma agrura, doença ou desgraça. Em tempos (também) de individualismo descarado e explícito, pode até ser que a maioria das pessoas pensem assim: “se algo de ruim ainda me acontece, talvez seja porque eu não esteja rezando com a fé necessária esse salmo aqui. Vou me apegar a ele, já que polícia, cerca elétrica e farmácia não estão me livrando de muita coisa mesmo.” Um cristianismo pensado assim é, no mínimo, distorcido.

Explicamos essa distorção se pensarmos que o próprio Jesus, fundador dessa religião, sofreu uma morte tão penosa e humilhante que o salmo não se aplicaria muito à situação, não é? A história da paixão de Cristo nos conta que Ele ficou, no decorrer de todo sofrimento, recitando alguns salmos. Era costume do próprio Senhor, como era (e é) de todo judeu. Certamente recitou também este salmo 22. E qual eram esses verdes prados que Jesus foi conduzido, a não ser as pedras estéreis da Gólgota? Quais foram as águas refrescantes que Ele consumiu, a não ser o vinagre oferecido pelo soldado romano, quando já estava fixado com pregos na cruz? Onde está a lógica do cristianismo? Podemos confiar nele? Sim; há uma lógica.

São Paulo gostava de chamar essa “lógica” de “loucura aos olhos dos que não creem”. Afinal, num papinho de botequim certamente minhas despretenciosas suposições acima teriam sido aceitas tranquilamente. Mas é necessário que compreendamos, como o próprio Deus fala a Samuel numa das leituras de hoje, que Ele não julga pelos critérios dos homens, e nem vê pelas lentes oculares humanas. Cristo estava, sim, sendo levado para os mais verdejantes dos pastos, como ovelha oferecida em holocausto; dessa forma, não só se encaminhava para tais pastagens, mas também nos conduzia a elas. Como? Para as eternamente verdes campinas do Senhor, lugar tão especial e que nos completa de tal maneira que todas as – imensas – dores sofridas nas cruzes da vida valeriam a pena.

O primeiro passo pra ser cristão é ter a consciência de nossa cegueira. Somos cegos pois tudo quanto enxergamos no fundo é nada; podemos olhar para todos os lados, mas o que vemos é um vazio sem limite, uma escuridão, como num quarto sem luz em plena madrugada. A Igreja começou a rumar agora para a parte final da Quaresma. Estamos cada vez mais próximos de sofrer as dores de Jesus com Ele, mas também mais próximos das águas que refrescam. Fica claro que para compreender a essa situação é necessário uma mudança radical na maneira de olharmos para a nossa vida; diante de Cristo – aquele que pode nos dar todo o bem e toda a graça – alguns valores do mundo se invertem. A luz do Senhor nos faz ver com os olhos de Deus, que vê o coração e pensa com o amor, e não o do homem, que vê aparências e pensa com um individualismo e a vontade do ganho.

Ser cristão não é fácil, principalmente se formos colocar em prática o que deveria ser colocado, e não tergiversar como muitos fazem por aí. É na confiança numa vida nova – com paz, bondade e amor – que faz com que entendamos a “loucura da cruz”, a loucura de um Deus que nos amou o tanto necessário a morrer por todos nós, sofrer e sentir-se abandonado para nos imitar, para que um dia pudéssemos imitá-lo. Quem crê em Cristo, sabe que existe algo além disso que vemos com esses olhos “que a terra há de comer”. E que para chegarmos nestes prados devemos humildemente pegar as nossas cruzes e passar pela Sexta-Feira Santa.

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