O futuro do Médio Oriente é o futuro do mundo

Segunda-feira parece ter virado aqui o dia de escrever sobre as mudanças do mundo árabe; acredito ser pertinente, pois, apesar de não ser algo tão fascinante e moderno quanto alguns chutaram no começo, está mudando a geopolítica da região e pode vir a influenciar muito o mundo. Afinal, aquela região é importantíssima, o umbigo do planeta. Os maiores impasses da sociedade humana estão ali. No mais, atualmente temos dois países sem governo oficial, uma guerra – com participação de EUA e Europa – e mais vários levantes populares sendo sufocados. A crise está longe de acabar, e a solução desejada, o retorno pelo preço de tantas almas perdidas, não está saindo como o esperado. No Egito, símbolo do movimento pela queda do importante Mubarak, a tal “juventude conectada” está sendo relevada pro segundo plano – se é que um dia existiu. Controle mesmo está nas mãos das Forças Armadas e da Irmandade Muçulmana. A Veja dessa semana traz uma entrevista de um líder da tal organização religiosa que diz que em cinco anos eles tomarão as rédeas do país; o New York Times também apresenta uma coluna nesse sentido hoje, que posto abaixo. Vale a pena ficar de olho, até porque acredito que um outro país teocrático com democracia de fachada como o Irã não seria lá muito saudável para o futuro do planeta.

 

Ascensão do grupo islâmico preocupa ativistas egípcios

“Os jovens não têm mais o controle da revolução”

Por MICHAEL SLACKMAN
CAIRO – No Egito pós-revolucionário, onde a esperança e a confusão se chocam na luta cotidiana para construir um novo país, a religião surgiu como uma poderosa força política, depois de um levante que se baseou em ideais seculares.
A Irmandade Muçulmana, grupo islâmico que já foi proscrito pelo Estado, está na vanguarda, transformado em um parceiro tácito do governo militar que muitos temem que impeça reformas fundamentais.
Também está claro que os jovens ativistas seculares instruídos que inicialmente promoveram a revolução não ideológica deixaram de ser a principal força política -pelo menos neste momento.
“Há evidências de que a Irmandade fez algum tipo de acordo com os militares desde o início”, disse Elijah Zarwan, um antigo analista do Grupo Internacional de Crise.
“Isso faz sentido se você é militar -e quer estabilidade e a população fora das ruas. A Irmandade é um endereço aonde você pode ir para tirar 100 mil pessoas das ruas.”
Amr Koura, 55, um produtor de televisão, refletiu as opiniões da minoria secular. “Estamos preocupados”, ele disse. “Os jovens não controlam mais a revolução. Isso ficou evidente nas últimas semanas, quando vimos muitos homens barbados assumirem o comando. Os jovens partiram.”
Nas primeiras etapas da revolução, a Irmandade relutou em aderir às manifestações. Ela só entrou depois que ficou claro que o movimento de protesto havia adquirido impulso. Durante todo o tempo, a Irmandade manteve um perfil discreto, parte de um instinto de sobrevivência adquirido em décadas de repressão pelo Estado.
A pergunta, na época, era se a Irmandade se moveria para liderar com sua estrutura organizacional superior. Hoje, tudo indica que sim.
Um membro da Irmandade foi indicado para o comitê que elaborou emendas à Constituição, que pedem essencialmente a aceleração do processo eleitoral para que as disputas parlamentares possam ser realizadas antes de setembro, seguidas pouco depois por uma corrida presidencial. Esse calendário acelerado é visto como uma vantagem para a Irmandade e os remanescentes do Partido Democrático Nacional de Hosni Mubarak, que estabeleceram redes nacionais.
O próximo Parlamento vai supervisionar a redação de uma nova Constituição.
Antes da votação em 19 de março, Essam el Erian, líder e porta-voz da Irmandade Muçulmana, apareceu em um popular programa de televisão defendendo a posição do governo a favor da proposta. Com um comparecimento recorde, a votação foi considerada um sucesso. Mas a campanha pelo sim se baseou amplamente em um apelo religioso: os eleitores foram advertidos de que se não aprovassem as emendas, o Egito se tornaria um Estado secular.
“O problema é que nosso país ficará sem religião”, dizia um panfleto distribuído no Cairo por um grupo que se intitula Sociedade da Revolução Egípcia.
“Isso significa que o chamado para as orações não será mais ouvido, como no caso da Suíça; as mulheres serão proibidas de usar véu, como no caso da França”, dizia. “E haverá leis que permitem que homens se casem com homens, e mulheres se casem com mulheres, como no caso dos Estados Unidos.”
Afinal, 77,2% dos eleitores disseram sim.
Isso não significa que a Irmandade esteja decidida a estabelecer um Estado islâmico. Desde os primeiros dias de protesto, líderes da Irmandade proclamaram sua dedicação à tolerância religiosa e a uma forma de governo democrática e pluralista.
Eles disseram que não apresentariam um candidato a presidente, que só disputariam o equivalente a pouco mais de um terço dos assentos do Parlamento, e que os cristãos coptas e as mulheres seriam bem-vindos ao partido político ligado ao movimento.
Nada disso mudou, disse o porta-voz Erian em uma entrevista. “Estamos ansiosos para disseminar nossas ideias e nossos valores”, ele disse. “Não temos sede de poder.”
As forças mais seculares dizem que precisam de tempo. O Egito ainda é uma obra em progresso. Ola Shahba, 32, membro de um grupo da coalizão jovem por trás dos protestos, disse: “Depois dos resultados do referendo, precisamos ser humildes”.
A coalizão e outros disseram que consideram preocupantes a aprovação majoritária das emendas e a ascensão da Irmandade, e uma evidência de que forças mais liberais precisam se organizar em uma campanha mais eficaz e rápida.
“A liberdade é boa, assim como a democracia”, disse Rifaat Abdul Massih, 39, operário da construção. “Mas eu sou cristão, e estamos um pouco preocupados com o futuro. Eu votei ‘não’ para dar mais tempo aos partidos seculares. Não quero ter a Irmandade Muçulmana aqui já.”

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny0404201106.htm

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