A liberdade ameaça a igualdade? Ou vice-versa?

Liberdade! Esse foi o grande mote do século XIX, onde – ancorados na Revolução Francesa e na Independência dos EUA – se “independer” era a priimeira palavra de ordem contra um mundo ainda colonialista. Igualdade! Já no século XX, este foi o desejo da maior parte das nações, amparado pelo “sonho vermelho” de um mundo comunista, ou numa social-democracia. E o século XXI, começa como? Diria o teórico da comunicação Dominique Wolton que vivemos numa indecisão e num choque entre esses dois pedidos: qual priorizamos? Liberdade ou igualdade? Queremos que todos sejam iguais, mas também somos contra qualquer tipo de tutela. Ontem, artigo do NYT falava sobre a necessidade do livre-arbítrio para se viver; hoje, JP Coutinho fala sobre os possíveis avanços da ciência genética e como ela poderá “modelar” os seres humanos de acordo com o pedido do freguês. Vale pensar nisso tudo. Acredito, fielmente, que liberdade, acaso, Providência Divina, mérito e – principalmente – a necessidade de uma fraternidade real, são totalmente compatíveis e necessárias para um bem-viver. O caminho seria receber a vida (que é imperfeita) de braços abertos, e buscar esse frágil equilíbrio.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Problemas de visão


A possibilidade de escolher geneticamente o “resultado final” geraria uma sociedade de insatisfação permanente


TIGER WOODS, considerado o melhor jogador de golfe de todos os tempos, tinha problemas de visão. Em 1999, incapaz de ler as letras maiores no ABC do oftalmologista, submeteu-se a cirurgia a laser. Recuperou a visão plena e tornou-se o fenômeno conhecido.
Mas o que diríamos nós de Tiger Woods se a intervenção médica tivesse transformado uma visão “normal” numa supervisão, muito acima da média? Uma visão capaz de detectar os buracos do campo a quilômetros de distância? Sentiríamos ainda o mesmo respeito pelas proezas do golfista?
Boa pergunta. E boa resposta, avançada pelo filósofo Michael Sandel em ensaio brilhante sobre a era da engenharia genética. Intitula-se “The Case Against Perfection” (o caso contra a perfeição), da Harvard University Press (162 págs.). A resposta de Sandel, como o título sugere, é negativa.
Corrigir uma visão deficiente faz parte da missão da medicina. “Curar” é o verbo.
Mas “alterar” ou “manipular” a natureza humana, proporcionando ao sujeito uma supervisão, uma superforça, uma supervelocidade, é mais do que curar. É entender que um ser humano pode ser objeto de ambições prometeicas.
A admiração que sentimos pelo talento natural e pelo esforço individual de um atleta desvanece-se perante a manipulação artificial.
E se assim é no esporte, assim é na vida: cresce o número de pais que, pelo menos nos Estados Unidos, gostariam de manipular geneticamente a descendência em gestação. Para que os filhos tivessem a combinação perfeita de beleza física e agilidade mental, cruzamentos apurados de Brad Pitt com Albert Einstein. A medicina tem recusado essas ambições. Mas até quando?
Sandel não sabe. Mas, adivinhando a emergência desse tempo, avisa: quando esse dia chegar, estaremos a alterar profundamente, não apenas o que somos mas, mais importante ainda, a forma como nos relacionamos uns com os outros em sociedade.
O interesse do ensaio de Sandel, talvez o melhor que li sobre o assunto, não está na inteligência com que repele o conhecido mantra “liberal” de que a manipulação genética é um atentado contra a autonomia do sujeito.
História conhecida: quando determinadas as feições, características ou comportamentos dos filhos, interferimos de forma abusiva numa vida que não nos pertence. Exercemos, no fundo, uma forma de “tirania paternal”, ou de “eugenia privada” sobre eles.
Sandel contrapõe, e contrapõe bem, que esse não é o problema central da engenharia genética. Desde logo porque os seres humanos não são radicalmente autônomos nas suas existências: a natureza, o acaso ou, para os que acreditam, a existência de um Deus criador também determinam parte do que somos e nem por isso somos menos livres para perseguir vidas responsáveis.
As verdadeiras implicações de uma aceitação plena da engenharia genética “à la carte” estariam no tipo de sociedades que acabariam por emergir: sociedades onde a humildade e a solidariedade deixariam de pautar as nossas condutas.
Hoje, os filhos são considerados “dádivas”. O termo não remete necessariamente para uma dimensão metafísica, ou religiosa; apenas sublinha a forma como os recebemos e amamos. Incondicionalmente. Sem que o “resultado final” desfigure a relação entre pais e filhos.
É compreensível que desejemos o melhor possível para os nossos. Mas também somos capazes de aceitar o inesperado porque nem tudo é moldável aos nossos desejos. O inesperado é a base dessa aceitação e dessa humildade.
A possibilidade de escolher o “resultado final” geraria uma sociedade de insatisfação permanente, incapaz de lidar com as contingências que fazem parte da vida humana.
Mas geraria também uma sociedade incapaz de lidar com os inesperados. Com os menos afortunados da loteria genética, os doentes, os fracos, até os feios e que seriam rapidamente convertidos em erros humanos. Ou, pior ainda, em erros da negligência humana. Precisaremos mesmo desse acréscimo de culpa e infelicidade?
A engenharia genética pode ter as suas vantagens, ao prevenir e curar a doença. E, nesse sentido, Sandel não recusa a polêmica pesquisa com células-tronco.
Mas a imperfeição humana não é uma doença. Doentes são os que acreditam no contrário.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0504201119.htm

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