Viver e Conviver

“O ser humano é socialmente constituído…”, bem, acho que não preciso repetir mais uma vez esta ladainha. É  mais do que claro que não há possibilidade para um homem viver só; quanto mais literalmente pensamos o termo, mais impensável: precisamos desde companhia para compartilhar as impressões acerca da vida, até de outros semelhantes para produzirem os mantimentos necessários para vivermos que nunca poderíamos fazer por nós mesmos. É essa natureza “coletiva” do Homo sapiens que faz, contudo, também sua queda: foi nos relacionamentos no decorrer da história que os maiores erros da humanidade foram cometidos; ainda é no trato com o outro que hoje nós nos atrapalhamos. Portanto, é na convivência que mora uma das chaves para um feliz “diaversário”.

A linha entre o que é certo e o que é errado no relacionamento com o outro é muito tênue, mas existe. Um dos padrões para tal medida é que o homem sempre está em busca da felicidade, e não poderia ser de outra forma: acaba buscando isso na convivência com os amigos e inimigos. Na maior parte das vezes, são as próprias pessoas as chaves necessárias para fazer o outro feliz; quantas vezes não nos deparamos por aí com gente radiante por ter recebido algum tipo de agrado ou lembrança do cônjuge, do filho ou do pai? Do mesmo modo, são tão numerosas também as situações de gente triste e magoada pela ação dos outros, que não necessariamente o fizeram por maldade, mas porque também erram. Se todos erramos – na medida, no teor, ou na natureza da ação – faz-se necessário e indispensável para o bem-conviver a virtude do perdão.

São Paulo de Tarso dá em uma de suas cartas uma recomendação muito interessante: “suportai-vos”. Parece algo até mais razoável do que o “amai-vos” deixado por Cristo, mas um não anula o outro. Como pode existir Amor se não há tolerância, se não nos suportamos nas nossas escolhas e opções? Somos todos livres, e a livre escolha é parte constituinte e inalienável da natureza humana. Todos temos (devemos ter, ao menos) o direito de nos expressar, de defender uma postura que pode ser diferente de todo o resto do mundo. Perdoar também está nisso: ter consciência de que nem sempre concordamos com o que o outro fala ou faz, mas que ele tem o direito de assim agir. Respeitar a liberdade do semelhante – até o ponto, lógico, de que ela não fira a minha – também é importante.

Por fim, penso que o mundo de hoje está cada vez mais seduzido por uma classificação da sociedade em determinados grupos; ação essa que viria para derrotar os preconceitos, mas acabam por valorizá-los e reforçá-los. Para viver bem com o outro é importante pensarmos que ele é um ser individualmente criado, único mesmo, e não simples membro de determinado grupo, classe social, ou região geográfica. Indexar as pessoas destrói suas naturezas, fere sua dignidade, e – por mais que pareca inofensivo – traz danos nefastos a longo prazo, sutilmente. Conseguir olhar para qualquer pessoa como um outro ser humano parece básico, mas é muito complicado se desfazer da cegueiras das aparências e do julgamento precipitado.

Há maneira de se co-habitar bem esse mundão, mesmo que estejamos já com mais de 7 bilhões de pessoas? Há sim, e a saída está muito mais na moral e nos valores do que nas condições econômicas, como se pode perceber. Apesar de parecerem aceitáveis as ideias veiculadas por tantos meios hoje e cultivadas em algumas culturas pessoais, se elas não defenderem o perdão, a liberdade e a individualidade, elas não vão muito longe. A vingança, o controle e a homogeinização são como bálsamo nos momentos de sangue-quente. Mas certamente não vão produzir os bons frutos possíveis para o homem, que são a única razão de vivermos tão próximos uns dos outros.

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