Morte e Vida: caminhos (des)conhecidos

E quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor. – Ez 37,13

Qual o maior medo do homem, e ao mesmo tempo a única certeza que ele tem em sua vida? A morte, sim, sempre ela, onipresente em cada respirada nova, em cada passo realizado, em cada palavra expressada. Diriam os mais realistas que a cada dia damos um avanço rumo à morte. A certeza do fim dá nas pessoas reações diferentes, mas só os transtornados o desejam; o resto anseia é por vida mesmo, quer mantê-la, prorrogá-la, viver mais e mais. E este é um dos aspectos que dão mais importância à religião: ela nos ensina a lidar com o fim de nossas vidas. Mas não é só isso: religião que se preze também tem que ensinar a viver o aqui, já que seria o que construirmos aqui que resultaria em determinada situação no pós-morte. Apesar de essa relação de causalidade (toda ação tem uma reação) ser extremamente natural ao homem, muita gente ainda reluta em vê-la de determinado ângulo.

Ouvia meses atrás meus tios se questionando da seguinte forma: o que é melhor? Viver doente ou morrer saudável? O que você preferiria: trinta anos de vida cheia de problemas ou um mês de saúde plena? Logicamente a maioria escolheu o primeiro, e é natural fazê-lo, mesmo que a princípio reine em nós um espírito rock’n’roll: aproveitar tudo, curtir tudo, na maior intensidade possível. Queremos viver, olhar, participar, ser testemunhas oculares da história do mundo, da das nossas famílias, da nossa própria. Mas o que realmente define uma vida bem vivida, que resultaria naturalmente numa morte conformada, com gosto de “fiz minha parte”? Os longos anos? A saúde gozada? O “número de horas de voo”, como um piloto? São incógnitas que pairam sob todas as cabeças, dando estas a devida conta ou não.

E é exatamente o fato de não saber exatamente porquê se vive que não se sabe porquê se morre. Temos medo de morrer, pois, não tendo manual de instruções sobre o que devemos fazer aqui, pensamos que podemos ser cobrados de nossos débitos lá. Mas espere aí: não há manual de instruções? Oras, há sim: nossa consciência. Ela é o juiz implacável que a todo momento fica do nosso lado, avaliando o que devemos fazer. É claro que já existiram muitas mentes por aí que fizeram coisa de errado “pra chuchu” e esse “detector de problemas” ficou calado; mas no homem comum em algum momento ele se manifesta; e manifesta-se com base na educação que tivemos (o que nossos pais nos ensinaram que é certo ou errado) ou na própria natureza humana, que tem uma consciência mínima dos limites de suas ações (exceto os psicopatas, reitero).

E como age essa consciência? Do que ela nos proíbe de fazer e o que ela nos incentiva? A pauta está sempre baseado na nossa própria saúde (se encostar a mão no fogão vai queimar), mas também no trato com o outro, sendo este último muito mais sublime e intrigante. Penso que existam dois tipos de relações entre os homens: as que geram o bem e as que geram o mal. Alguns poderiam dizer que também existem as neutras, mas creio que são apenas ações más disfarçadas, já que no mínimo seriam perda de tempo. Mas um curioso poderia perguntar: se sabemos que devemos sempre fazer o bem aos outros – pela nossa consciência – todos que fazem o mal seriam psicopatas, lunáticos, problemáticos? Não, óbvio; o nome é outro: somos egoístas. É o egoísmo, o pensar demasiado em si, sem ter a noção de que existe vida fora do próprio umbigo, que fazem as pessoas agirem mal nesses casos.

Chego então, finalmente, à resolução da incógnita: o que define uma vida bem vivida? Resposta: viver numa sucessão de atos construtivos, para si e para todos aqueles que nos circundam, sem provocar separações, brigas, contendas ou ódio. Ou seja: ao agirmos em paz com nossa consciência e com a dos outros, estamos mais do que escolhendo a vida, estamos criando essa vida, para nós e para todos. Disso posso deduzir que o trecho que destaquei hoje da profecia de Ezequiel vai muito além da ressurreição após a morte; o Amor que vem de Deus (que, se você não percebeu, é sobre o qual estou falando desde o começo) é o único que pode nos tirar do túmulo de nossas existências. No egoísmo, morremos ainda vivos; no Amor, vivemos, ainda que morramos.

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