Qual é a órbita da sua vida?

A Igreja sempre defende em seus documentos e escritos que a face religiosa do homem é parte inseparável de sua vida, e todo aquele que tenta negligenciá-la acaba por tornar-se angustiado e em busca de outros métodos de convencimento. Seja por meio dos papas, santos ou doutores, esta ideia também acaba refletindo na vida social, na questão da liberdade religiosa e de culto, e no relacionamento de um “Estado laico” com as instituições religiosas. No mundo de hoje – e principalmente para as gerações mais novas – a religiosidade acabou se tornando mais um lazer, um passatempo, ou simplesmente coisa de gente ociosa. Ainda não conseguimos perceber que ela é necessária para sermos o “homem inteiro” do qual fala JP Coutinho na coluna de hoje. Antes, se aderia às igrejas por obrigação, temor; hoje se prega a liberdade de se acreditar ou não no que quiser. E tudo isso só acontece porque não conseguimos nos dar conta de que não é em torno do nosso ego que o mundo gira e se realiza.

 

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Homens inteiros


Em “Homens e Deuses”, filme de Xavier Beauvois, aprendemos que a fé é uma forma de coragem


POIS É: a Europa pode estar em crise, economicamente falando, mas por vezes ainda existem uns sopros de vitalidade. Artística, entenda-se, vitalidade artística. Valha-nos ao menos isso.
O cinema francês é um caso e os brasileiros podem comprovar o que digo. Basta que assistam ao filme de Xavier Beauvois, “Homens e Deuses”, que finalmente desembarcou nas salas do Brasil [estreia nesta sexta]. A Páscoa sempre foi um tempo de milagres.
Comentário breve: é a melhor colheita cinematográfica de 2011 até o momento. Desconfio que será a melhor nos meses que faltam.
Comentário longo: é muito mais que um exercício piedoso e ecumênico sobre a tolerância religiosa e interreligiosa, como dizem os críticos.
É um filme sobre a fé, esse tema arcano e intangível que povoa o melhor cinema dos “mestres do norte”, como Carl Dreyer (1889-1968) ou Ingmar Bergman (1918-2007).
E ainda oferece, como complemento, a mais bela “última ceia” que o cinema recente produziu. Mas vamos por partes.
Premiado no Festival de Cannes, “Homens e Deuses” é a história, aparentemente simples, da vida simples de oito monges cistercienses que vivem, rezam e trabalham em país do norte de África.
Vivem em paz entre si e, mais importante, com a população muçulmana local, que acorre ao mosteiro em busca de consolo físico e até metafísico -cuidados de saúde, conselhos sentimentais, comentários religiosos. O fato de uns lerem a Bíblia e outros o Corão não impede uma irmandade sacramental perante as perplexidades da existência.
Mas essa concórdia será abalada por aqueles que transformam a religião em arma de guerra. O fundamentalismo islâmico começa a rondar a aldeia. Os terroristas também. Existem notícias de massacres contra estrangeiros, mulheres, imãs.
A população é tomada pelo medo. Os monges são avisados pelas autoridades nacionais: para que partam de imediato, antes que a tragédia se abata sobre o mosteiro. Avisos sábios.
Mas como partir assim, de uma hora para a outra, abandonando a aldeia ao seu destino? E partir para onde, se a existência trapista implicou o abandono e a renúncia de uma vida anterior?
São dilemas terríveis e o melhor do filme está nessas agônicas indecisões. E no calvário espiritual que elas implicam: o confronto humano, demasiado humano, com o medo, com a covardia e até com a descrença. “Morrer pela fé não deveria impedir-me de dormir”, diz um dos monges insones ao irmão superior, com lágrimas de vergonha. Mas será possível pedir tanto a tão poucos?
A resposta vem no Livro: esse tanto já foi pedido a um só. E não é por acaso que o primeiro confronto com os terroristas se dá na noite de Natal. A noite em que os monges se preparam para celebrar um nascimento humilde que libertou os homens da morte. E do medo da morte.
Libertação do medo da morte: haverá forma mais eloquente de traduzir a fé dos que acreditam?
O irmão superior, em comunicação final aos demais, responde e clarifica: depois da primeira visita dos terroristas, e antes que a última se aproxime, ele entendeu que só havia uma coisa a fazer. Continuar.
Dia após dia, com tarefas de todos os dias: cuidar dos doentes; cuidar dos irmãos; cuidar do mosteiro.
E abandonar todo o medo da morte porque só nesse abandono é possível nascer e renascer outra vez. Como homens inteiros, para quem a vida não é uma desculpa ou um castigo; mas um compromisso até o fim.
Não conto esse fim, filmado sob neve e em silêncio. Prefiro regressar ao mosteiro e vislumbrar, naquelas oito vidas, a metáfora essencial sobre as nossas próprias vidas.
Como os monges, caminhamos sobre gelo fino, que um dia se abrirá para nós também. Mas poucos se lembram dessa verdade que nulifica toda vaidade humana.
E, quando a lembramos, é para fugir desesperadamente dela com simulacros de esquecimento -a tentação da covardia que visitou os irmãos e por eles foi derrotada.
No primoroso filme de Xavier Beauvois, aprendemos que a fé é sobretudo uma forma de coragem: a coragem dos que olham a morte de frente e, apesar disso, ou talvez por causa disso, se recusam ir a enterrar antes do tempo.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1204201121.htm

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