Uma semana para mudar todas as vidas

Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar a parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. – Jo 20,6ss

Chegamos em Jerusalém há uma semana. Entrávamos por seus muros junto ao Mestre e uma multidão, que o seguia gritando glórias a Deus, com ramos de oliveira nas mãos. Vimos que não seria uma Páscoa qualquer. Na segunda fomos a Betânia, na casa de Lázaro, o ressuscitado, e o clima estava pesado; os judeus não estavam gostando de nada daquilo. A agitação e tensão só cresceram com o passar dos dias – o Mestre só falava de traição e negação a Ele. Não entendíamos. Na quinta-feira, nos convidou para uma grande ceia. Ali, todos ficaram absurdados com o que se passou: tomando o pão, disse: “este é meu corpo”, e o cálice: “este é o cálice do meu sangue.” Continuamos sem entender. E entendemos menos ainda – e ficamos mais estupefactos – quando ele tomou uma bacia, uma toalha, e se abaixou lavando os pés de cada um dos doze.

O Mestre estava decidido, como sempre, fazendo as coisas sem vacilar; mas não carregava toda a felicidade que costumava trazer normalmente. Pediu que fôssemos com ele ao Monte das Oliveiras. Ele, cada vez mais transtornado. Até que – por volta da meia-noite – chegaram os guardas dos sacerdotes do Templo. Judas beijou-o – traiu-o – e prenderam-no. Dessa vez não fugiu – nem reagiu. Quem fugiu fomos nós; corremos, voltamos pra casa, desamparados, desesperados, perturbados. Ao raiar do dia fomos procurá-lo, mas não o encontramos; era a primeira vez que isso acontecia. Chegando o meio-dia, grande agitação na cidade: Jesus estava com Pilatos, em seu palácio. Fomos até lá, e não conseguimos acreditar no ódio que o povo tinha do Mestre. “Crucifica-o! Crucifica-o!” era o brado que se ouvia forte; até na Galileia devia se ouvir.

Dali em diante, não dá para descrever tanto horror. Mandado à flagelação, foi desfigurado nas mãos dos brutos e pagãos soldados romanos, que o coroaram de espinhos. Em cena ridícula, Pilatos lavou as mãos e disse que era inocente de seu sangue; mesmo assim, deixou que o crucificassem. Levando sua própria cruz, caminhou fisicamente vacilante até o Monte Calvário, mas espiritualmente intacto. Tentávamos acompanhá-lo, mas a multidão nos afastava; eram tantos que queriam chegar perto dele para chutá-lo, xingá-lo, insultá-lo. Parecia-me que ele estava sozinho e assim deveria estar. Chegando ao destino, foi pregado na cruz – suplício interminável – e elevado. Era irreconhecível. Como se sabia que era o Mestre que estava ali? Seu olhar; continuava magnânimo, majestoso, invencível. Por que passava por tudo aquilo?

Entregou-se nas mãos do Pai, tirando forças para um brado que parecia impossível. Morreu; realmente morreu. Tiraram seu corpo, sepultaram-no. Estávamos nós de novo, em procissão, levando seu corpo até o jazigo. Escutava-se o pranto de Verônica. Ó noite dolorosa, sem palavras. No decorrer do dia vacilamos entre lembrar seu feitos e duvidar do futuro; o que havíamos de fazer? A Páscoa se mostrava diferente desde o início, mas não tão desgraçada quanto tal! Nem tínhamos vontade de celebrar os ázimos, nada daquilo parecia ter sentido. Até que na madrugada – todos dormiam de cansaço, mas ninguém queria pregar o olho – as mulheres foram à sepultura, fazer um sepultamento melhor, pois na sexta a correria havia sido grande.

Todos despertam com o grito de Madalena: “Ressuscitou! O Senhor nos apareceu! Ele está vivo!” Pedro e João correram para ver; a confusão era grande. Voltaram, dizendo: “Agora cremos. Ele havia de morrer e ressuscitar!” E eis que Ele aparece: vivo, muito mais vivo que outrora, claro e altivo como um fogo novo, chama que abrasava todos os nossos corações. Partiu o pão conosco por mais uma vez: tudo fazia sentido! “Tomai e comei; tomai e bebei.” Como aquilo era novo e revigorante, verdadeiro e inegavelmente magistral! Voltamos à Galileia, saindo da Cidade Santa novamente em procissão: não tão numerosa quanto a de uma semana atrás, mas muito – e muitíssimo – mais feliz e realizada. Ora, Páscoa Santa e verdadeira! De que valia celebrar a passagem pelo Mar Vermelho se presenciávamos a passagem de Nosso Senhor pelo tenebroso e caudaloso rio da morte?

Entramos em Jerusalém em busca de algo, voltamos totalmente encontrados. Entramos aprendizes incrédulos, voltamos mestres da verdadeira Lei. Entramos com medo de topar com a morte; voltamos com a Vida em nossas mãos e a morte aos pés. Entramos discípulos; voltamos apóstolos, com a missão de levar ao mundo todo a mensagem da Verdadeira Páscoa. Entramos felizes pelos ázimos; voltamos radiantes pelo Pão da Vida que divide-se e não se esgota. Entramos com Moisés no coração; voltamos com Deus ao nosso lado. Entramos chamando o Salvador de santo; voltamos cantando glórias a nosso Redentor. Ó Páscoa incomparável, ó tempo de graça, ó felicidade sem limites! Entramos em Jerusalém dispostos a encarar os poderes visíveis; saímos com a autoridade sobre todos os visíveis e invisíveis. Totalmente livres por obra dAquele que morreu por nós, trilhamos agora o Caminho, sabemos a Verdade, e ganhamos a Vida. Tempo verdadeiro, felicidade perene. Aleluia, aleluia!

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