Àqueles que me fizeram assim

Certo tempo atrás defini que “a Providência Divina é a ação de Deus em nós pelo livre-arbítrio dos homens”. Se crermos realmente que Deus está nos guiando pelos caminhos – não como marionetes, mas como um pastor zeloso – podemos pensar que o fator principal que dá rumos diferentes à nossa existência são as pessoas com as quais convivemos. Existem aquelas que estão no âmago de determinadas mudanças, como os pais que nos trouxeram à vida, a(o) namorada(o) que se tornou esposa(o), o chefe que nos demitiu, etc. Mas existem também aquelas que simplesmente nos “influenciaram” com seu jeito e suas ideias; “simplesmente”, não: de maneira aparentemente teórica, elas acabam também mudando vidas! Hoje João Pereira Coutinho escreve uma carta ao escritor inglês Auberon Waugh, dizendo o que digo a tantas pessoas que fizeram eu ser o que sou hoje, na minha infância, adolescência e juventude: “Eu, que poderia ter sido médico ou advogado, engenheiro ou astronauta”, não o fiz. Posso agradecer-vos “pelo fato de teres arruinado a minha vida?” Muito obrigado, de coração.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Carta a Auberon Waugh


Mas hoje, com este livro póstumo, posso agradecer-te por teres arruinado toda a minha vida? MEU CARO Auberon,


Estou em Londres, cidade tua, e acabo de encontrar “Kiss Me, Chudleigh: The World According to Auberon Waugh” (Coronet, 366 págs.). Folheio, compro, releio: como antologia dos teus artigos, é talvez a melhor. Porque existe uma tentativa de entender o mundo sarcástico e surreal que foste construindo na imprensa nativa.
Aplaudo os textos, como sempre. E aplaudo a inteligência de William Cook, o organizador fiel, que soube dividir por temas (biografia, pessoas, lugares, livros etc.) a tua descontrolada verve opinativa.
Descansa, não vou falar do livro. Vou falar de ti. Ou de mim. Sem sentimentalismo. Sei que abominas o tom e jamais perdoarias uma falha tão grave quanto essa.
Mas hoje, com este livro póstumo nas mãos, posso agradecer-te, tarde e a más horas, pelo fato de teres arruinado toda a minha vida?
Aconteceu muitos anos atrás, ainda eu usava fraldas na adolescência. Sim, o meu amadurecimento foi relapso. Mas quando te encontrei nas páginas do “Daily Telegraph”, cresci de imediato como a Alice no País das Maravilhas.
O teu nome de família ajudava, é certo: já era leitor de Evelyn Waugh, teu pai; mas não do Evelyn que interessava, o iconoclasta perfeito de “Decline and Fall” ou “Vile Bodies”. Andava perdido nas piedades de Brideshead, conquistado por aquele típico charme inglês que eleva a alma, mas seca tudo em volta.
Foste tu que me fizeste descer à terra com duas lições magistrais.
A primeira, que não existem lições: a vida é um caos sereno que vamos enfrentando com a ironia possível. E, a segunda, que uma coluna de jornal é tão digna ou indigna como um romance ou um poema.
Foi o fim. Eu, que poderia ter sido médico ou advogado, engenheiro ou astronauta, juntei-me à tribo dos cronistas e montei negócio em dois ou três mil toques por coluna.
Nada disso teria sido possível, confesso, se às duas lições anteriores não tivesses acrescentado uma terceira: não existem temas interessantes ou desinteressantes. Somos nós que conferimos interesse ou desinteresse às palavras que vamos alinhando.
Isso vê-se em tudo que escreveste: na forma como pegavas na realidade mais anódina; como a distorcias a golpes de irrisão; e como a voltavas a servir em prato de luxo, transformando o mundo comum em peça literária digna do cânone.
Quem disse que Jonathan Swift não deixou herdeiros? Deixou, sim, mas não em suporte convencional: o maior escritor inglês do século 20 nasceu, cresceu e morreu em páginas de jornal. Chamava-se Waugh, mas não é o Waugh de quem todos falam. Em matéria de ironia, só perdes para o Altíssimo.
E eu perco para ti. Nada a lamentar: há mais de uma década que me encontras por aí, debitando sobre o mundo. Mas nunca cedi ao pecado capital do colunismo: o pecado da indignação. Ah, tu sabes do que falo: textos de dedo em riste, disparando adjetivos sérios e moralistas sobre a fauna política circundante.
Em 13 anos, nunca levantei a voz. É verdade: nunca escrevi um “é intolerável” na vida. E sobre o ponto de exclamação, esse supremo ultraje, só o uso para efeitos de paródia. Juro, velho amigo! Juro!
Contigo aprendi a cantar no tom certo. Mas sabemos que o tom vale pouco quando não existe uma técnica que o sustente.
Felizmente, tive em ti o professor perfeito. Eu, português e gongórico, com milhares de páginas queirosianas a assombrar-me a pena, levei com o teu exemplo e comecei a limar as frases. A dizer de forma simples o que tencionava dizer simplesmente. A nunca usar três palavras quando duas chegavam. A nunca usar duas quando uma bastava. E a ter na frase curta e no ponto final o marcador autoritário das minhas danças.
Aprendi o tom, aprendi a técnica. Só faltava mesmo o tempero. E ele veio com uma última exigência tua: ser independente de partidos ou partidários; e abusar sempre dos mais fortes, nunca dos mais fracos.
Assim me fiz ao mundo. De armadura posta. E se hoje te agradeço, é também para avisar que não te livrarás de mim. Um dia, espero visitar-te no paraíso para onde partiste em 2001 com típica desfeita. Estou certo que beberemos os vinhos do Douro que tanto amavas, e que agora me acompanham nestas últimas linhas que te envio por celestial correio.
Um abraço, patife.
João

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0305201112.htm

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