Por quem nós suspiramos?

O último fim de semana foi movimentado: a manhã da sexta-feira era marcada pelo esperado casamento entre o príncipe herdeiro da Grã-Bretanha, William, Duque de Cambridge, e a ex-plebeia – agora duquesa e princesa – Catherine Middleton. Já no domingo cedo, em outro ponto da Europa, o falecido Papa Católico Romano João Paulo II – nascido Karol Wojtyla – era proclamado Beato pela Igreja Católica. O que os dois eventos tem em comum além do fato de terem ocorrido dentro de uma cerimônia religiosa? Para a maioria das pessoas, são cerimônias de tempos que já se foram: vivemos hoje num mundo sem duques nem santos, sem nobreza nem clero, sem rainhas nem papas. Não gostaria, porém, de ficar na análise geral de cada um dos eventos – o que certamente fugiria dos propósitos desse blog. Gostaria é de fazer uma análise um pouco mais a nível pessoal: o que cada um de nós aspiramos quando assistimos esses eventos pela televisão? Qual era o nosso objetivo?

No  casamento real, o que mais se ouviu por aí foi a expressão “conto de fadas”; talvez seja a melhor descrição: a cinderela que limpava o chão das irmãs más e vivia uma vida miserável tem a oportunidade de entrar para a nobreza, de ser conquistada por um príncipe que apaixonadamente traz o sapatinho de cristal para ver se era aquele o gracioso pé que um dia ali esteve: e era! E viveram felizes para sempre. Fazer uma análise da beatificação é um pouco mais difícil, pois o evento ficou um tanto quanto ofuscado, por dois motivos. O primeiro, óbvio: pelo próprio casamento real, que caiu em dias próximos, atraiu toda a atenção da mídia, dos analistas, dos palpiteiros e dos papos de botequim. Outro, a meu ver, é também o fato da imagem de João Paulo II em si ter esfriado depois de cinco anos de sua morte, e mesmo tantos outros de muito sofrimento e queda em sua atividade missionária pelo mundo. A figura do beato estava ainda viva, principalmente, naqueles com mais de trinta anos, que acompanharam suas vindas para o país, suas viagens, seu carisma, e acreditaram ter sido feita a justiça ao dá-lo a honra dos altares; apesar de muitos não compreenderem a diferença entre beatificação e canonização.

Resumindo e comparando: muitas mulheres suspiraram por Catherine e seu vestido sóbrio, carregado por tantas daminhas ajudantes, entrando na Abadia de Westminster aos olhares da rainha Elizabeth, de toda a corte, da Igreja Anglicana, de seus súditos e do mundo todo. Aquela ascenção individual, tanto no âmbito financeiro, de classes, de status e até mesmo do “amor de príncipe”, apesar de parecer medieval, continua no imaginário de muita mulher nesse mundo. Muitos também suspiraram pelo Beato João Paulo II, agradecidos por ter ele mostrado  o valor de ser católico, de uma religiosidade dinâmica, alegre e bonita; não tanto pela formalidade dos processos do Vaticano, mas por voltar às telas e às mentes a imagem daquele homem, que mesmo vivo já era considerado santo.

O ponto de minha dúvida é: tantas sonharam em estar no lugar da nova duquesa; mas quantos sonharam em estar no lugar do beato Papa? Quais valores fazem com que a conquista de um espaço na “nobreza” seja um ganho notável na cabeça de mulheres das mais pobres às ricas, das japonesas às americanas, das crianças às senhoras? E quais valores se perderam para que a santidade não seja algo considerado alcançável, mas simplesmente coisa de gente “única” como João Paulo II? Será que o exagero na riqueza e nas posses – que já eram almejados antes do século décimo – continuam em alta hoje, como algo moderno e progressista, enquanto a bondade e santidade são coisas de um mundo teocêntrico e retrógrado?

Olhar para a princesa Catherine e para o Beato João Paulo deve nos trazer uma indagação clara acerca de nossos objetivos de vida: ela, resgatada de sua decadência social perante à Corte da Rainha, foi trazida radiante para aproveitar o que a vida tem de melhor a oferecer. Ele, retrato sofredor de alguém que se doou e deixou de lado tudo que a vida tinha “de melhor”, simplesmente para levar o resgate para pessoas com a existência marcada por uma decadência verdadeira, perante outras tantas Cortes de poderosos. Quem será que ganhou mais?

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