O remédio pra paranoia é a razão

Disse ontem que a fé é o melhor método para espantar qualquer tipo de burrice. Não quero dizer, porém, que as nossas certezas de vida não dependem do  que aprendemos nos estudos, sejam acadêmicos ou na escola da vida. A razão e a fé não são inimigas; pelo contrário, aquela complementa esta. Uma razão sem fé perde todo o seu sentido, pois vemos tudo mas não enxergamos nada (é o que eu dizia no texto de ontem). A fé sem razão – ou a caridade sem verdade, como diria Bento XVI – dá espaço para fundamentalismos, separação e teorias da conspiração. Sim, estas são as piores, e é do que trata o texto que posto hoje do New York Times. E não pensem que os malucos que acham que o 11/9 foi planejado pelos próprios EUA são incomuns: muitos de nós temos nossas próprias teorias conspiratórias, que chegam – em seu ápice – a uma patologia chamada “paranoia”. Quem nunca foi um pouco paranóico?

Teorias conspiratórias resistem às provas

Por KATE ZERNIKE

Assim que Barack Obama divulgou a sua certidão de nascimento completa, Orly Taitz, líder do movimento “birther” -que alega que o presidente não nasceu nos EUA e, portanto, não poderia assumir o cargo-, viu motivos para duvidar.
“Um passo na direção certa”, disse ela, embora fosse precisamente o documento que muitos “birthers” exigiam. E, então, argumentou que ainda faltava a autenticação. Donald Trump, com suas motivações políticas, também minimizou as provas, aproveitou para se gabar por ter forçado a divulgação da certidão e sugeriu que Obama estava escondendo algo a mais -notas ruins na faculdade.
Muitos acham que as dúvidas sobre a naturalidade de Obama são motivadas apenas por preconceito racial. Vários acadêmicos que estudam as teorias conspiratórias concordam.
Mas eles também lembram que essas teorias não são de forma alguma exclusividade de Obama; elas têm um longo histórico nos EUA e em outros lugares, vindas da direita e da esquerda, abrangendo todo tipo de assunto, político ou sobrenatural (as torres gêmeas não foram atingidas por aviões). E quem duvida da cidadania de Obama se encaixa no molde de outros teóricos da conspiração: eles não abrem mão tão facilmente das suas convicções.
“Torna-se quase uma questão de fé e, como com qualquer crença teológica, não é possível confrontar com fatos” disse Kenneth Kitts, professor da Universidade da Carolina do Norte e autor de estudos sobre episódios que geraram algumas grandes teorias conspiratórias -o ataque a Pearl Harbor e o assassinato de John Kennedy, entre outros.
O fato de americanos dizerem às pesquisas que duvidam da cidadania do presidente é menos surpreendente quando se nota o percentual considerável dos que aderem a outras teorias conspiratórias, disse Robert Alan Goldberg, professor de história na Universidade de Utah e autor de um livro sobre o assunto.
Segundo ele, 80% dos americanos acreditam que Kennedy foi assassinado por uma conspiração, e não por um atirador solitário, conforme concluiu uma comissão do governo. E 30% acham que o governo acobertou o desembarque de alienígenas em Roswell, Novo México. O 11 de Setembro, é claro, também inspira teorias conspiratórias -teria sido tramado “pelos judeus” ou pelo governo Bush.
Por definição, disse Goldberg, uma teoria conspiratória é uma crença de que forças astutas provocam ataques terroristas ou calamidades econômicas para que consigam curvar a história aos seus desígnios. “Vejo essa conspiração ‘birther’ como exemplo típico”, disse. “Isso vai além da questão de se tratar ou não de um presidente legítimo. A verdadeira questão para eles é essa crença de que se trata de uma manobra desse grupo oculto para obter o poder, para levar os americanos na direção do socialismo, do globalismo ou do multiculturalismo, usando Barack Obama como um peão.”
O Caso Dreyfus é um exemplo conciso dessa natureza “não importa se você fez ou não” das teorias conspiratórias. Alfred Dreyfus, um jovem militar judeu, foi injustamente preso na França em 1894 sob acusações de traição. Seus superiores alegaram que sua caligrafia apareceu em documentos incriminatórios, escreve Louis Begley em um livro sobre o tema. Quando um perito duvidou da semelhança entre as caligrafias, o governo apresentou outro documento para argumentar que a diferença era a prova da culpa -Dreyfus teria alterado a sua escrita para despistar as pessoas.
Goldberg escreve em uma enciclopédia, chamada “Conspiracy Theories in American History” [teorias conspiratórias na história americana], que “a teoria conspiratória extrai sua energia ao se fundir aos valores e crenças americanos tradicionais e reforçá-los: um sentido de missão, a supremacia protestante, as preocupações com as violações à liberdade, o antielitismo, a manutenção da ordem racial e a inviolabilidade da propriedade privada”.
Por essa análise, não surpreende que o primeiro presidente negro dos EUA, formado na Ivy League, se torne alvo de uma teoria conspiratória. Muitos teóricos da conspiração acreditam que não só que o presidente mentiu sobre o seu local de nascimento, como também sobre sua fé religiosa (na versão deles, Obama é muçulmano, outra teoria que sobreviveu apesar de todas as provas em contrário).
Mas mesmo os estudiosos das teorias conspiratórias se surpreendem com a intensidade dos rumores envolvendo a certidão de nascimento de Obama. Kathryn Olmsted, professora de história na Universidade da Califórnia, observa que os teóricos da conspiração alegavam que o presidente Dwight Eisenhower, republicano ardorosamente envolvido na Guerra Fria, era, na verdade, um comunista enrustido. Mas os ataques a Obama, argumentou ela, dizem respeito à raça. E, como esses teóricos são alimentados pelo ódio partidário, muitos não vão ficar satisfeitos. “Eles sempre vão questionar a autenticidade dos documentos que receberem”, disse ela, “porque não estão guiados por uma busca pela verdade”.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny0905201106.htm

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