O “pobrismo” que prejudica os pobres

Vivemos num mundo injusto e desigual: sim, muitos ainda passam muitas necessidades, estão subnutridos e até morrendo por falta de alimento, pela miséria pura e simples. Uma sub-vida. Eu dedico este tipo de situação lastimável à falta de caridade do ser humano, que não consegue enxergar muito além do próprio umbigo. Mas ainda está no auge da moda ideológica crer na velha “luta de classes”, na dicotomia “opressores-oprimidos”, que os pobres só estão onde estão pela ganância e pelo esquema financeiro dos ricaços. Isso abre portas para um preconceito que pode causar muita coisa ruim: os pobres teriam então todas as portas abertas para fazer o que bem entender, em busca de sua “equalização” neste cenário. Marx dizia que jorrar sangue por essa causa seria normal. Tio Rei mostra no texto abaixo como isso se dá nos dias de hoje, com a ajuda da mídia. É bem longo, tento resumi-lo, mas é bem importante lê-lo. Eu diria fundamental.

12/05/2011 às 19:47

Higienópolis: o preconceito estúpido da imprensa contra gente decente avançou para o anti-semitismo neonazista

O preconceito às avessas é uma arma política cada vez mais quente no país. Em nome do combate à discriminação, discrimina-se; em nome da igualdade, faz-se a apologia da desigualdade; em nome da crítica à insensibilidade dos ricos, exercita-se o pobrismo mais vagabundo. O “pobrismo” não se traduz por amor, admiração ou respeito pelos pobres. Ao contrário: ele significa a consolidação da diferença, como se “eles”, os pobres, existissem como animais de uma outra natureza, distinta da nossa; como se fossem uma variante antropológica. É evidente, sempre chamo as coisas pelo nome, que a consolidação dessa estupidez se deu com a chegada do PT ao poder.

(…)

Digamos, para pôr um tantinho de esquematismo na equação econômica, de modo a entender o processo, que os “ricos” brasileiros se dividam em dois grupos: os que pagam impostos — a classe média que apanha nos jornais, portais, revistas, TVs e rádios — e as que recebem impostos via empréstimos subsidiados do BNDES. O primeiro tende a resistir ao PT; o segundo tende a ser entusiasmadamente petista.

Pronto! Caracterizei, assim, o Zeitgeist, o espírito do tempo, que resultou na campanha mais canalha dos últimos tempos feita contra uma comunidade de pessoas decentes — na sua esmagadora maioria ao menos: refiro-me ao bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo, onde moro há 19 anos. Está sendo estigmatizado nas chamadas redes sociais e na imprensa como um bolsão de ricos discriminadores, que querem manter distantes os pobres, para não se misturar com a gentalha.

É uma canalhice e uma indignidade. Há tantas pessoas decentes e indecentes em Higienópolis quanto na favela de Paraisópolis. Só que há uma diferença: ai daquele que sugerir que um mau-caráter da favela representa a média da população local! Se o fizesse, seria demitido. E por boas razões. Mas a fala estúpida de uma moradora de Higienópolis pode ser tomada como síntese do pensamento de seus moradores. A primeira postura é considerada “reacionária”; a segunda, “progressista”. É legítimo ser injusto em nome do progressismo; é legítimo desfigurar a justiça diante da suspeita de que ela possa ser “reacionária”.

Por que isso tudo? Todos vocês estão sabendo. A chamada Linha 6-Laranja, do Metrô, tinha previsto, inicialmente, uma estação na avenida Angélica, principal artéria que serve o bairro — onde, segundo parece, moram todos os “ricos” do Brasil. Como costuma acontecer nesses casos, houve manifestações de moradores. Alguns são contra; outros, a favor. 

(…)

Pois bem… A tal estação da Linha Laranja, na Angélica, ficaria, meus caros, a 650 metros — SEISCENTOS E CINQÜENTA METROS!!! — de uma outra cujo nome será, vejam que coisa!, “HIGIENÓPOLIS-MACKENZIE”. O governo do estado decidiu tirar a estação Angélica do traçado e transferi-la para o entorno do estádio do Pacaembu porque não faria sentido ter duas estações tão próximas.

Como é possível acusar todo um bairro de ser contra o Metrô quando uma das estações será construída no seu miolo, carregando, inclusive, o seu nome, sem que tenha havido qualquer protesto? Mais: quem quiser ter a prova do que é uma orquestração canalha, de natureza política, está convidado a andar pelo bairro. Procurem saber onde ficará a estação Higienópolis/Mackenzie, e vocês verão que até mesmo a construção da estação Pacaembu seria discutível. Faz-se o trajeto a pé em menos de 10 minutos. Afinal, ninguém tem a ambição de ter sempre o Metrô à porta de casa. Mais: três estações do Metrô já servem o entorno do bairro: Clínicas, Marechal Deodoro e Santa Cecília. São elas que trazem moradores de toda a São Paulo para os jogos do Coringão no Pacaembu. É lindo ver as ruas de Higienópolis tingidas de branco e preto! O alarido das sacadas quando joga o Timão evidenciam sem sobra de dúvidas: o coração deste bairro é corintiano!

Difamação
Por que, então, a difamação? Por que as opiniões contrárias à construção de uma estação colada à outra foi lida como manifestação de preconceito? Uma moradora do bairro, sei lá em que circunstância, teria dito que o bairro é constituído de “gente diferenciada, sugerindo que a estação provocaria uma mistura indesejada. Sua opinião foi tomada como média do que pensam os moradores do bairro — um dos mais democráticos que conheço, tanto quanto se possa falar assim. Ora, se os “higienopolitanos” não querem “se misturar”, por que não provocaram um levante contra a estação “Higienópolis/Mackenzie”?

Como escrevo lá no começo, o Zeitgeist anda favorável ao arranca-rabo de classes, à satanização da classe média que é considerada “rica”. A esquerdopatia da rede começou a hostilizar o bairro, como se todos aqui quiséssemos manter distantes os pobres. O Estadão faz uma reportagem a respeito com o seguinte título: “Metrô: recusa de Higienópolis causa protestos na Web”. Como assim? “Recusa de Higienópolis?” E a estação que será instalada no miolo do bairro? O jornal reproduz como opinião respeitável o que diz um certo Rodrigo no Twitter: “A mesma elite que elogia metrô em cada esquina de Londres e Paris barra a chegada da estação em Higienópolis”. É só uma mentira! É só uma boçalidade. E o jornal dá curso à vigarice.

Churrasco de gato
No Facebook, combinou-se, em tom de pilhéria, mas muito reveladora, que se vai fazer um churrasco “de pobre” em frente ao shopping, no sábado. Atenção para o respeito que essa gente tem pelos humildes que dizem defender: a festa reuniria “farofa, carne de gato, cachorro, papagaio e som”. Entenderam? Essa gente nunca viu pobre na vida, a não ser as domésticas — parte dela, é bem possível, mora em Higienópolis e em outras regiões “ricas” da cidade. A exemplo de Lula, o animador de festinhas da burguesia, esses caras querem que os pobres se danem. São mero pretexto para exercitar rancor, ressentimento e politicagem vagabunda. “Festas de pobre”, como se vê, são feitas com “churrasco de gato”, mas não as deles, que não se consideram ricos, mas apenas “conscientes”. Já fui pobre. Come-se, nas festas da pobreza, com mais fartura, coisa que esses estúpidos esquerdistas de manual ignoram. Pobre não tem medo de engordar!

(…)

Ministério Público
Como se nada de mais urgente houvesse para tratar e como se os moradores de Higienópolis, porque “da elite”, não tivessem o direito de reivindicar nada, de se mobilizar e dar a sua opinião, o Ministério Público, na pessoa do procurador Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, decidiu pedir esclarecimentos a Jurandir Fernandes, secretário estadual dos Transportes Metropolitanos. Diz Lopes: “Quero saber se ele cedeu a uma pressão da elite ou se a questão foi técnica. Se a questão foi de quem pode mais chora menos, é um absurdo para a cidade.” Segundo o promotor, o governo pode ser denunciado por desrespeito à Constituição, que garante tratamento igual a todos os cidadãos. É mesmo?

Então vamos ver, doutor! Se a população de Paraisópolis pode se mobilizar para reivindicar alguma coisa dos governos, por que a de Higienópolis não poderia? Ainda que o Estado tivesse mudado o traçado atendendo a essa reivindicação — está claro que não foi por isso —, pergunta-se: a escolha daquele local para construir uma estação é uma determinação da natureza? Não pode nem mesmo ser negociada com aqueles que serão diretamente afetados pela obra pública? Se todos são, como o senhor diz, iguais perante a lei, por que o senhor distingue, valorando a palavra de forma negativa, a “elite” da “não-elite”? Fosse assim, doutor, uma das características do elitismo seria a falta de legitimidade para reclamar?

(…)

Se você não conhece Higienópolis, leitor, eu o convido a passear por suas ruas e praças. Sim, é um bairro composto de prédios de classe média — alguns da chamada classe média alta. Existem alguns milionários e artistas misturados à boa gente anônima do Brasil, que luta para ganhar a vida e que tem até mesmo o direito de, às vezes, reivindicar alguma coisa do estado. No passeio público, está presente o Brasil, com todos os seus matizes de renda, origem, cor de pele… Na praça Buenos Aires, babás, empresários, profissionais liberais e moradores de rua dividem o espaço público. Ninguém molesta ninguém.

Recomendo o passeio no fim das tardes de sábado. Casais judeus saem com suas crianças quando termina o shabat, cruzam com outros moradores que estão levando seus cachorros para passear, todos misturados aos trabalhadores que voltam ou chegam às suas casas. Essa gente, é bem provável, traz em si resumidas todas as questões e todas as respostas que interessam ao Brasil, todas as alegrias e todas as tristezas decorrentes de se viver “nestepaiz”. É assim em qualquer lugar. Onde quer que os humanos estejam, ali se encontram o horror e a salvação. Eu diria que este bairro está entre aqueles que chegam mais perto de um ideal de civilização que consiste e viver e deixar viver.

O resto é pobrismo, que é, reitero, a forma mais asquerosa de preconceito contra os pobres!
Por Reinaldo Azevedo

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/higienopolis-o-preconceito-estupido-da-imprensa-contra-gente-decente-avancou-para-o-anti-semitismo-neonazista/

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