Fim da linha: “e agora, como faz?”

Quando ouviram isso, eles ficaram com o coração aflito, e perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: “Irmãos, o que devemos fazer?” – At 2,37

Na época em que eu era menino, sempre tive uma tremenda curiosidade acerca de como era ser adulto. Ouvia muito “ser adulto não é fácil, etc etc.” Acho que hoje descobri ao menos uma das possíveis explicações: ser adulto é fazer bobagens e não ter o pai e a mãe para consertá-las para você. E aí vem as dificuldades, tristezas, noites mal-dormidas, e outros sofrimentos. Afinal, bobagem todo mundo faz, todos já se engaram alguma vez na vida – e muitas vezes nem é necessário tanto: as pessoas se enganam por nós e nos envolvem na mentira. Mas a Verdade permanece ali, mesmo quando nós estamos crentíssimos de que aquilo que vivemos seja o correto. Mas é claro que ao percebermos o problema que nos envolvemos (mais ou menos quando erramos o caminho da viagem e nos damos conta disso), dizemos as palavras que o povo judeu disse aos apóstolos: “Irmãos, o que devemos fazer?”

Com base nessa experiência que tanto me chamou a atenção na liturgia de hoje, podemos dizer que despertar para o erro pode ser mais doloroso do que errar; ao contrário, errar pode ser até gostoso! Mas as consequências chegam, e sem pedir licença. Essa questão do erro também sempre habitou minhas indagações: ouvia sempre meus avós dizerem que fulano estava no caminho errado, que ciclano estava jogando a vida fora, que beltrano estava fazendo coisa que não prestava (e muitas vezes essas pessoas eram seus próprios filhos e netos, hehe). Nunca duvidei da sabedoria deles, mas questionava: “tudo bem que a pessoa errou, perdeu tempo, dinheiro e energias, não conseguiu nada dos talentos que recebeu; mas e aí? Acabou? Fim da linha? O que resta? Suicídio?” Esta mesma imagem me vem quando se fala de “mercado de trabalho”: o cara não se especializou, não estudou e agora está fora; como faz?

Em relação ao mercado de trabalho eu não sei, deixo isso para os especialistas em “recursos humanos”. Eu sempre preferi as questões mais profundas, e por mais que possa não parecer, uma vida que se percebe diante de um beco-sem-saída é bem pior que simplesmente uma carreira corporativa sem futuro.  Por isso a imagem da Misericórdia foi uma das primeiras e inalienáveis características de um Deus que tive fé, porque se ela não existisse o impasse seria insuperável: joguei fora minhas oportunidades mas ainda estou vivo, faço o quê? Por isso aquele pessoal ficou tão aflito, na passagem em que destaco hoje: São Pedro disse que aquele Jesus que eles tinham mandado crucificar era “o Senhor e o Messias”. “Só isso, só”, pensaram eles, “mandamos matar O HOMEM. Lascou.” Seria a literalidade do ditado popular “taquei pedra na cruz”.

Olhando para esse mistério que parece tão estranho e insolúvel, percebi – e ainda percebo – a importância e fundamentalidade em ser cristão. Não olhando a vida pelos olhos de Jesus, o negócio fica impossível! Mas qual é a visão do Redentor? Aquela expressa na incrível parábola do Filho Pródigo: o filho pede ao pai sua parte da herança antes mesmo que o velho morra; pega aquele dinheiro (devia ser uma boa quantia) e sai pelo mundo “aproveitando a vida”, “gastando com prostitutas” das mais variadas naturezas, como disse seu próprio irmão ao vê-lo voltar; enfrenta uma crise financeira (e olha que naquela época nem existia capitalismo) e se vê trabalhando de tratador de porcos, sem o direito nem de comer a comida dos animais, a lavagem, o resto. Volta então ao pai, ajoelhando-se e dizendo indigno de ser seu filho; o pai o acolhe e faz festa – e que festa! A indignação do irmão é a representação de nosso pensamento; o abraço do pai representa o Amor de Deus.

Se não for assim, como é? Nada se sustenta no “olho por olho, dente por dente”; essa regra só parece boa quando nós estamos cobrando. Mas ao analisarmos o todo da situação, veremos que ao apostarmos nessa fórmula tudo racharia como num castelo de cartas. Se nosso perdão ao outro é fundamental para a manutenção da sanidade do mundo, imagine nossa relação com nosso Deus e Pai? Afinal, a ideia de que toda ação tem uma consequência também é impossível de ser descartada, senão não poderíamos acreditar na justiça. Mas sem crer na Divina Misericórdia, morreríamos de aflição ao nos perguntarmos “o que devemos fazer?” Uma vida sem esse tom torna-se insuportável de ser vivida; portanto, uma vida não-cristã é insuportável: é apenas feita de ovelhas perdidas tentando mastigar ervas-daninhas que crescem em meio às rochas do deserto.

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