Prioridades Viciantes e Sufocantes

Então os Doze Apóstolos reuniram a multidão dos discípulos e disseram: “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas.” – At 6,2

 Dizia o meu pároco hoje de manhã que muitas vezes não é o arroz e o feijão que nos sustentam, mas sim a fé em Deus. Com base na frase dita pelos apóstolos acima, me arrisco a dizer: nunca é o arroz-e-feijão que nos sustentam! O ser humano, desde o princípio de seu “ser homem”, tem essa bobagem: precisa de algo a mais para viver. Nós não somos como os leões – olha eles de novo aqui – que nos damos por satisfeitos tendo a caça ali pra próxima refeição e a água do lago para quando der sede. Nós sempre buscamos – e colocamos – algum tipo de objetivo maior em nossa vida; e não falo aqui só de religião não, mas o trabalho, a criação dos filhos, a namorada/o, o time de futebol, os estudos, as festas, a bebida, a droga: são essas coisas que nos sustentam, sejam elas úteis para esse papel ou não.

Engraçado colocar no meio dessa lista coisas boas e ruins, não? Mas assim é o que me parece, as coisas ruins são tão legítimas para guiar nossa vida quanto coisas aparentemente boas. Há algum tempo cunhei a frase: “tudo pode ser vício”. Não precisa ser químico, rolar todo o procedimento na sinapse dos neurônios, pra que a gente fique – realmente – dependente daquilo. E não precisa ser substância: quantos não existem por aí que são viciados no trabalho! E quantos não são viciados em outra pessoa, num ídolo, no parceiro, no irmão! E quantos não são viciados em ser viciados: estão sempre procurando uma obsessão para ter algo para viver. Mas nenhum deles, por mais inofensivo que pareça, é bom. O vício tem uma característica: nunca se dá por satisfeito.

Ficamos então em um daqueles impasses: o homem não consegue viver sem ter um objetivo; e os objetivos muitas vezes tomam tanto espaço em nossas vidas que acabam sufocando e destruindo outras coisas. Como resolver? “Tentando equilibrar as coisas”, diria um desatento. Não, não tente ficar alcançando equilíbrio: ele não existe. Sem um fiel da balança, algo que nos sirva de padrão, sempre estaremos tentando equilibrar as coisas e acabaremos puxando mais para um lado. Já perceberam que para o viciado tudo fica em segundo plano, depois da droga? Eis o lado bom: tudo pra ele tem o mesmo valor quando está em busca de seu alucinógeno. Que tal colocarmos então, a frente de nossas vidas, algo que não é alucinógeno, não nos deixa irresponsáveis, e ainda permite que todo o resto fique equilibrado?

Do que estou falando? De Deus, ora bolas, nosso Pai, que nos deu Jesus Cristo para mostrar como a coisa realmente é. E a coisa com Jesus pode parecer um pouco estranha no começo, mas ela é – principalmente – radical, e todo radicalismo é estranho. Vejam a frase dos discípulos acima. É um comportamento que parece egoísta: como deixar de lado de servir o arroz e feijão em prol de outra coisa? Como se come? Na verdade, ela é reflexo de uma atitude do próprio Cristo: quando Ele estava na casa de Lázaro, Marta “servia as mesas”, enquanto Maria – sua irmã – estava aos seus pés, ouvindo-o. Marta se irrita e pede ao Senhor que diga pra Maria ajudá-la. O que Ele diz? “Vai lá, Maria, sua lerda”? Não, definitivamente. Diz: “Deixa-a, Maria escolheu a melhor parte”.

 Então é desnecessário servir as mesas? Não; se continuarmos a história a partir daquele ponto, veremos que os apóstolos escolheram sete homens cheios de fé para se dedicar só a esse serviço. Mas a Palavra devia ser levada adiante! Ela era – e é – a mais importante das atividades; “o caminho, a verdade e a vida”. Colocar Deus acima de todas as coisas não é um vício destruidor, não rouba nossas forças, não causa violência entre irmãos (se assim está causando, não está no caminho correto). O Amor temente coloca, sim, Deus antes de tudo; e faz com que todo o resto esteja em equidade, e nada nos tire da uma paz e bem-estar, conosco mesmos e com nossos amigos e inimigos.

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