“Quantcha Gente… e Quantcha Alegria”?

Eu sempre brinco por aí sobre a quantidade de gente no mundo:  7 bilhões de pessoas não é um número fácil de se administrar. Sem querer ser muito partidário de Thomas Malthus – que achava que praticar a contracepção era a única maneira de manter a espécie viva – ainda me espanto em pensar que em 2100 seremos 10 bilhões, e que provavelmente – e torcemos pra isso – a maioria desses estará vivendo bem, acima da linha da miséria, num bom padrão de vida. Como será possível? Tanta gente consumindo tanto! Vai ser necessário colocar as tecnologias pra funcionar e – como diz a autora do texto que posto abaixo – perceber que o problema está muito mais no comportamento individual de cada um desses bilhões do que na cifra em si. Concordo plenamente, mas que o número assusta, assusta.

INTELIGÊNCIA/RACHEL NUGENT

Espaço para 10 bilhões

Londres
Fala-se na ameaça da “bomba populacional” desde o alvorecer da “Era Industrial”. A longa sombra malthusiana paira sobre diversos assuntos: são bocas demais para alimentar; pressão demais sobre os recursos hídricos; assentamentos urbanos muito povoados, produzindo agentes patogênicos novos e assustadores, capazes de varrer populações inteiras.
Apesar disso, eu não saí correndo ao ouvir o mais recente relatório da ONU dizendo que a entidade errou ao estimar que a população mundial se estabilizaria em 9 bilhões até 2050. Em vez disso, a população deve continuar crescendo até cerca de 2100 e vai se estabilizar em torno de 10 bilhões.
Eu não perco o sono me preocupando com quando a bomba populacional vai explodir, mas há quem se preocupe, e essa gente não deve ter ficado contente com as notícias dadas pela ONU de que a taxa de fecundidade não caiu tão rapidamente quanto se esperava na África e no sul da Ásia. Não há como negar que o ambiente global já está sofrendo sob muitos aspectos, e alguns creem que isso se deve tanto ou mais ao excesso de consumo quanto ao total populacional.
Ao lançar o relatório, Hania Zlotnik, diretora da Divisão Populacional da ONU, disse o seguinte acerca do rápido crescimento dos países africanos: “Se eles não atingirem o nível de fertilidade mais baixo que estamos projetando, podem ter problemas sérios”.
O que aconteceu no meu caminho para o futuro é que eu parei de me preocupar com bombas figuradas e percebi que são os indivíduos -a forma como eles nascem, vivem e morrem- que determinam se os recursos são usados com prudência, se as crianças nascem saudáveis ou se a propagação de doenças é minimizada. Uma cifra populacional não nos diz isso.
Fecundidade e mortalidade são parte da mudança populacional, mas, como gosta de dizer David Canning, economista da Universidade Harvard especializado em demografia, “elas têm efeitos muito diferentes”. Reduzir ambas é algo desejável na maioria dos países em desenvolvimento, mas desacelerar a fertilidade reduz a população, enquanto desacelerar a mortalidade a aumenta.
Os demógrafos, há anos, dizem que a ONU foi otimista demais em suas suposições sobre quanto tempo levaria para que muitos países e alguns Estados indianos atingissem índices de fertilidade suficientes apenas para a reposição populacional. Em alguns lugares, como Quênia, Nigéria e Chade, o declínio nas taxas de fertilidade está estacionado ou sendo revertido.
As novas projeções da ONU levam isso em conta. Elas pressupõem uma taxa global de fertilidade em torno de 2,17 em 2050, enquanto as projeções anteriores supunham um índice muito próximo do nível de reposição, 2,02. Essa pequena diferença per capita se traduz em 156 milhões de pessoas a mais em 2050 do que se previa antes.
Agora que estamos propensos a ver um aumento mais rápido e prolongado na população mundial, podemos concentrar nossos esforços em evitar as muitas bombinhas que explodem quando a fertilidade e mortalidade são altas.
Já há excelentes evidências a respeito de como reduzir a fertilidade e propiciar vidas melhores e mais saudáveis para mulheres e crianças. A partir de pesquisas em Bangladesh e Gana, aprendemos que programas abrangentes de saúde reprodutiva, saúde infantil e planejamento familiar, levados até a porta das pessoas, são capazes de reduzir a taxa total de fecundidade em um filho por mulher. E os benefícios econômicos, ambientais e sociais são poderosos. Em Bangladesh, isso significou rendimentos 40% maiores para as mulheres, além de um patrimônio familiar 25% superior.
Os programas também levaram as famílias a maior acesso à água potável e as crianças a mais tempo na escola.
Bons programas e políticas nos países de crescimento populacional elevado podem reduzir as taxas de fertilidade e resultam também em menos mulheres anêmicas, menos bebês nascidos com baixo peso e menores índices de mortalidade materna e infantil.
Mesmo que uma dessas alterações diminua a população, e as outras a eleve, juntas elas produzem uma situação em que todos ganham, mas isso não fica evidente nas cifras do aumento populacional.
 Talvez a melhor descrição para isso seja a escolha entre “qualidade versus quantidade” da qual os demógrafos falam. Facilitemos essa escolha, e as projeções virão a reboque.

Rachel Nugent é economista do Centro para o Desenvolvimento Global, que fica em Washington. Envie comentários para o e-mail intelligence@nytimes.com

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny2305201104.htm 

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