Não é defender Israel; é combater o terrorismo

Vejo que realmente estou de um lado muito claro da ideologia mundial: os dois autores que posto aqui semanalmente – Rei Azevedo e JP Coutinho – parecem convergir em vários aspectos, sem se ler, e eu com eles. Semana passada, no calor do discurso que Obama fizera para a questão Israel x Palestina, Reinaldo escreveu um texto defendendo Israel. Hoje, alguns dias depois, Coutinho publica coluna do mesmo assunto, no mesmo ponto-de-vista: Israel não deve abrir mão de terras para os palestinos pois ela possivelmente seriam usadas para lançamento de bombas contra os israelenses. Creio que hoje não cabe a nós defender Israel, mas vale combater o terrorismo dos grupos muçulmanos da região, como o Hamas e o Hizbolah. O assunto é importante, então posto o texto do autor português abaixo. É bom, pois ele não sai de pauta.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Israel, Palestina, gelatina


A comoção que o discurso de Obama provocou é inversamente proporcional à banalidade das palavras


ISRAEL É como um bom orgasmo: podemos não transar durante dias ou semanas, mas, quando finalmente acontece, é como se fosse a primeira vez.
Todo mundo discute o assunto, todo mundo acusa todo mundo e o leitor inocente acredita que o conflito israelense-palestino começou hoje com o café da manhã. Ou ontem, depois do jantar.
Olhemos para Barack Obama: o que disse o presidente americano de novo nos seus discursos da semana retrasada?
A julgar pelas reações de políticos e jornalistas, disse coisas fundamentais. Como, por exemplo, que um novo Estado palestino deve ser reconhecido nas linhas anteriores ao conflito de 1967, embora com trocas de terras acertadas por comum acordo.
Sim, as linhas pré-1967 são um “déjà vu” na história dessa história. Mas o momento orgástico aconteceu com as “trocas de terras acertadas por comum acordo”, uma sacada genial que levou vários jornalistas e diplomatas ao delírio. Como foi que ninguém pensou nisso antes?
Lamento ser uma ducha de água fria para o pessoal. Mas a sacada genial já foi pensada antes. E foi pensada em condições extremas e dramáticas, depois do fracasso dos encontros de Camp David e depois da segunda intifada.
Corria o ano 2000. E o tempo também corria contra Bill Clinton: a poucos meses de deixar a Casa Branca, e sem um acordo de paz entre Yasser Arafat e Ehud Barak, Clinton apresentou o seu plano para ressuscitar o cadáver e parar com a guerra civil ” de fato” entre israelenses e palestinos.
Eis o plano: um Estado palestino nas linhas anteriores ao conflito de 1967 e, veja só, com “trocas de terras acertadas por comum acordo”.
Para sermos exatos, o futuro Estado palestino seria composto por 94% a 96% da Cisjordânia; os 4% restantes seriam anexados à faixa de Gaza, ou seja, retirados a Israel para compor a totalidade do bolo palestino.
Sabe o leitor o que sucedeu? Barak aceitou a proposta; Arafat recusou-a. O “processo de paz” estava morto, Clinton estava de saída e George W. Bush de entrada. Vieram os ataques de 11 de Setembro. Washington passou a concentrar as energias no Afeganistão e no Iraque.
Mas, apesar disso, o conflito israelense-palestino não foi completamente esquecido. Em 2003, era lançado o “Road Map” [mapa da estrada, em livre tradução], sob os auspícios do Quarteto para a Paz. Por Quarteto, favor ler: Estados Unidos, Nações Unidas, União Europeia e Rússia.
Pergunto novamente: sabe o leitor qual era o plano do Quarteto? Exato. Nem preciso repetir.
Mas repito o que fez Ariel Sharon, então premiê de Israel, sob pressão do Quarteto: depois de 38 anos de ocupação, Israel se retirou unilateralmente de Gaza em 2005.
De nada serviu. O Hamas passou a lançar foguetes para o interior de Israel; Israel retaliou com ferocidade inaudita. Em 2006, o Hamas venceu as eleições parlamentares e, até hoje, recusa-se a reconhecer a “entidade sionista”. E Israel?
Israel recusa-se a retirar da Cisjordânia por temer uma repetição de Gaza em ponto grande. Uma história a respeito: anos atrás, em conversas com um diplomata israelense no Ministério das Relações Exteriores em Jerusalém, perguntei-lhe quando é que Israel retiraria da Cisjordânia. A resposta dele foi longa, elaborada, ponderada. E resume-se numa única palavra: nunca.
A comoção que o discurso de Barack Obama provocou na mídia e nas chancelarias é inversamente proporcional à banalidade das suas palavras e à banalidade das reações árabes e judaicas.
Barack Obama deseja um Estado palestino nas linhas anteriores à Guerra dos Seis Dias, embora com “trocas de terras acertadas por comum acordo”. Bocejo.
Israel deseja continuar na Cisjordânia e recusa-se a retirar do território porque imagina, não sem alguma razão, que a Cisjordânia seria rampa de lançamento de foguetes contra Israel. Como foi Gaza. Duplo bocejo.
O Hamas, reagindo aos discursos de Obama, considera-o um traidor e uma fraude e deseja que Israel seja riscado do mapa porque entende que a “ocupação sionista” não se limita à Cisjordânia; ela abarca toda Palestina. Triplo bocejo.
E eu? Eu, modestamente, desejo o prato de gelatina que está na geladeira. Faz calor em Lisboa e há coisas neste mundo que ainda são alcançáveis por mãos humanas.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2405201119.htm

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