Lar, Doce Lar

Naquele dia [em que eu virei a vós] sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. – Jo 14,20

 

“Eu estou no meu Pai”: que quer dizer Jesus com esta expressão? “Estar” não significa permanecer ao lado, no mesmo lugar; também não quer mostrar a temporalidade, de algo que pode estar ali e depois não mais; a ideia que quer o Mestre passar aí é que Ele, mesmo estando aqui na Terra falando com os discípulos, estava com o Pai, ou seja, vivia com Deus, em sua presença, em sua companhia. A companhia, entretanto, de Jesus com seu Pai é muito mais profunda do que simplesmente de dois amigos que trocam ideias: Cristo diz em outra passagem que “Ele está no Pai e o Pai está nEle”; isso quer dizer “comunhão”: um intercâmbio íntimo de vida, de vontades, de pura e simples existência. Quem comunga com o outro comunica, experimenta e vivencia o outro.

É nessa relação intimista que se estabelece a religião cristã. Como disse no texto de sexta-feira, somos fieis de um Deus “de braços abertos”, totalmente exposto e entregue para seus servos, agora chamados “amigos”. Jesus não só abriu os braços para que pudéssemos chegar ao seu coração, mas teve o peito transpassado pela lança, para que o caminho e a comunhão entre nós e aquele epicentro de Vida fosse total. Até porque o Redentor não veio até nós só para mostrar que Ele e o Pai eram um, e nos deixar simplesmente como serviçais de uma família unida e bacana. A segunda parte do trecho diz que devemos saber que nós também estamos nEle e Ele está em nós. A frase é escrita desse jeito, sem vírgulas, para dar a dimensão de que tudo faz parte de uma mesma comunhão: Deus Pai – Jesus – Nós.

Mas como podemos compreender esse tipo de relacionamento se não o praticamos e vivemos no cotidiano? Afinal, o terceiro membro da relação ali é “nós” e não “eu” ou “você”. Devemos nós estarmos unidos, em uma pré-comunhão, para podermos adentrar estes mistérios. É óbvio que determinado feito não pode ser conquistado pela nossa força-própria: o egoísmo é dominador no nosso dia-a-dia; sempre pensamos nos “meus problemas”, “minhas pendências”, “meu trabalho”, etc. Mas para deixarmos que o Espírito Santo nos leve para um patamar diferenciado de “nós”, devemos estar dispostos a deixar de lado um pouco a fortaleza que cerca o nosso íntimo e permitir que as pessoas possam comungar de nossa própria fonte de vida: nosso coração, nossa alma, nossos mais profundos anseios.

Quantas vezes temos dificuldades em abandonar a imagem que construímos de nós mesmos e queremos passar aos outros! Somos como uma casa, onde se pensa mais na manutenção e embelezamento da fachada do que no reparo das infiltrações e rachaduras lá dentro. Por quê? Pois tentamos sempre manter as pessoas lá fora, passando na rua e dizendo “quão bonita é esta casa”. E nos pavoneamos, sem perceber que a residência fica vazia, e a casa não chega a ser um lar. Qual será que é mais importante: uma casa onde todos que passam por ela se admiram, ou uma residência simples, que assume suas goteiras e trincados, mas que recebe todos acolhedoramente para uma festa bem animada e aconchegante, onde os convidados se sentem à vontade?

É claro que existem aqueles que não querem fazer parte da festa, querem invejar (seja a bela aparência externa ou a alegria interna) e estão sempre prontos para – pedras na mão – destruir todas as vidraças que insistem em ficar de pé por ali. O que fazer com eles? Nada, a não ser convidá-los sempre a entrar, e deixar sempre um vidrozinho de reserva caso algum seja quebrado. Ser cristão é isso, e bastar olhar para Jesus para perceber: como a maioria das pessoas gostava de entrar naquela Casa! E como tantos outros se revoltavam e se incomodavam com aquela maneira de ser. Uma coisa é certa: nosso Senhor nunca negou as portas de seu coração: de Pedro a Zaqueu, de Pilatos a Saulo, todos foram convidados a entrar. Bobos somos aqueles que preferem passar frio do lado de fora.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Religião, Viagens

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: