“Burro” é quem não quer entender

Hoje não posto aqui a coluna do dia do João Pereira Coutinho; apesar de bem escrita, o assunto não caberia pra muita discussão aqui. Posto um outro artigo, publicado em sua coluna na Folha.com. É sobre o direito das mães de amamentar em público. O artigo é genial pela ironia – que atinge níveis pesados – que coloca na questão. Já que se pode amamentar numa sala de cinema, por que não fazer outras coisas? É óbvio que ele colocou todo esse excesso de sátira só para dar efeito humorístico a sua ideia: não é porque amamentar é natural que deve ser feito em qualquer lugar. Mas a reação das mães foi feroz: diz ele que recebeu até ameaça de morte. Ou não entenderam a ironia, ou apenas é mais uma amostra do Rolo Compressor do Pós-Modernismo e Liberalismo Moral debruçando seu politicamente correto sobre o autor português. Divirtam-se.

 

16/05/2011 – 07h00

Mamonas celestinas

  Um dos fenômenos mais interessantes da vida moderna encontra-se na quantidade de mães que eu vejo dando de mamar em público. Às vezes, sinto até inveja: dos bebês e das próprias mães, pela forma descontraída como se entregam ao ato, seja no meio de uma rua, de um shopping, de um café.
 O caso mais espantoso deu-se uns anos atrás, quando encontrei uma mãe dando de mamar numa cabina telefónica: esperei que o almoço terminasse e depois, quando o bebê finalmente arrotou, entrei e fiz a minha chamada. Tranquilo.
 É por isso que gostaria de aplaudir as organizadoras do “mamaço”, uma campanha destinada a reclamar esse direito. O “mamaç” foi idealizado depois de uma mãe ter sido impedida de amamentar o seu bebê numa galeria de exposições do Itáu Cultural, em São Paulo.
 “Excesso de zelo”, disse o diretor do centro cultural. Disse muitíssimo bem: se eu posso comer pipocas quando vou ao cinema, é justo que um bebê tenha direito ao seu lanche quando é arrastado para uma exposição.
 Aliás, a única coisa a lamentar é as organizadoras do “mamaço” não irem um pouco mais longe, exigindo a aceitação geral dos nossos gestos mais naturais e íntimos, que só mentes profundamente reacionárias podem considerar impróprias para consumo geral.
 A masturbação é um caso: séculos de preconceitos religiosos e culturais inculcaram a ideia tenebrosa de que a masturbação é um erro, um crime, um pecado.
 Nada mais longe da verdade: a masturbação é fundamental como descoberta do corpo, sobretudo durante a adolescência; e seria por isso aconselhável que os nossos adolescentes pudessem efetuar essas descobertas em público, derrubando os pesados muros do preconceito com movimentos íntimos, frenéticos, extasiados.
 Mas a revolução não ficaria por aqui. Quem disse que as relações íntimas entre dois seres humanos devem ser confinadas às quatro paredes dessa masmorra burguesa, que dá pelo nome de “casa”?
 Pessoalmente, acho escandaloso que as ruas das nossas cidades não ofereçam camas portáteis, capazes de socorrer o calor dos amantes quando outro tipo de fome subitamente os ataca.
 E, por falar em ataques, haverá algo mais triste, mais melancólico, mais desolado, do que a insuportável solidão do banheiro?
 Uma civilização digna do novo século seria a primeira a construir vasos sanitários ao longo da calçada. Não há nenhum motivo para manter a nossa privacidade longe da praça pública quando é possível executar as necessidades mais naturais em plena interação com os restantes pedestres.
 As mães do “mamaço” deram o primeiro passo. Rimou. Seria bom que todo mundo tivesse a coragem para dar o segundo. (Não resisti.)
 Por mim falo: amanhã de manhã, abandonarei a clausura do meu chuveiro. E prometo levar tudo –sabonete, shampoo e patinho de borracha– para tomar um banho demorado na principal fonte da cidade.

Por João Pereira Coutinho

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/916122-mamonas-celestinas.shtml

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