Aula de RP: usando e abusando da Opinião Pública

A nossa sociedade atual está cheia de assuntos controversos, que obviamente não possuem um consenso acerca dele. Em Relações Públicas entende-se, na verdade, que de qualquer assunto pode surgir uma controvérsia. E ela não é ruim! O debate sobre ela deve ser guiado de uma forma que todos pensem, concluam e saiam satisfeitos. Daí emana a tal “opinião pública” que tanto se fala por aí. O que não pode, num caso desses, é o fato de grupos organizados dominarem o debate e não proporcionarem a discussão. Reinaldo traz hoje uma aula de RP, apresentando um caso de como não gerir a pobre opinião pública. Nesse fato verídico, o assunto é o Código Florestal, dominado pelos fortes grupos do lobby verde, numa pesquisa do Datafolha.

 

16/06/2011 às 6:01

Vejam, leitores, como tentam enganá-los – Um caso descarado de manipulação da opinião pública que deveria virar tese acadêmica. Ou: como uma minoria pretende impor sua vontade à maioria

Caras e caros,

O que vai abaixo é muito mais do que a contestação de uma pesquisa. Eu destrincharei para vocês um dos instrumentos a que se recorre para formar a opinião pública — na verdade, infelizmente, para manipulá-la. Em 25 anos na profissão, raramente vi coisa assim.

Desde que os jornais noticiaram, no dia 11, que 79% dos entrevistados eram contrários à “anistia aos desmatadores” e que 85% diziam que a legislação deve priorizar as florestas, eu tenho tentando botar os olhos na pesquisa. Finalmente, tive acesso aos dados na noite desta quarta-feira. É um troço chocante. Contam-me que, no programa Roda Viva de segunda-feira, Marina Silva (quase ex-PV) brandiu esses dados. A primeira motivação que tive para ver o levantamento foi essa história de “anistia”. COMO NÃO EXISTE ANISTIA NENHUMA NO RELATÓRIO DE ALDO REBELO, fiquei curioso para saber que diabo de pergunta havia sido feita aos entrevistados.

Vou expor e analisar algumas questões propostas pelo Datafolha, comentar o resultado, fazer considerações sobre a amostra. Vocês avaliam depois se o instituto deve ou não explicações de natureza técnica. Já discordei de critérios do Datafolha, mas sempre considerei seu trabalho responsável. A partir do que vai abaixo, não sei mais.

Pergunta 6 – A grande mentira
A pergunta nº 6 do Datafolha é esta:
Uma das propostas do novo Código Florestal é que todos os proprietários de terra que desmataram ilegalmente até junho de 2008 estariam isentos de multas e punições. Você é a favor ou contra que esses proprietários de terra sejam perdoados das multas?

Disseram-se contra 79%; a favor, 19%, e 3% disseram não saber. Muito bem, leitor! Estaria tudo certo se existisse mesmo essa proposta no texto do novo Código Florestal! Mas ela não existe! É uma farsa! A pesquisa foi encomendada pelas organizações Amigos daTerra-Amazônia Brasileira, IMAFLORA, IMAZON, Instituto Socioambiental, SOS Mata Atlântica e WWF-Brasil. Mas não é lícito que o Datafolha atribua ao texto o que lá não está para fazer a vontade do cliente.

Ora, feita essa pergunta, chego a estranhar que não tenham obtido 100%. Que tal o Datafolha perguntar se as pessoas são favoráveis à paralisia infantil, ao tétano e ao sarampo? As multas só não serão aplicadas se o proprietário cumprir uma série de exigências, conforme estabelecem os Artigos 33 e 34. A pergunta do Datafolha é mentirosa. Eu posso provar o que digo, e vocês podem verificar com seus próprios olhos. O texto está aqui.  Notem que, na suposição de que boa parte dos entrevistados não soubesse exatamente o sentido da palavra “anistia”, optou-se por “perdão”. É, sim, um sinônimo, mas de sentido bem mais forte e presente na sociedade. De todo modo, perdão e anistia, nesse caso, têm como sinônimo outra palavra: FARSA.

Pergunta 7 – A mentira sórdida
Não é possível que os técnicos do Datafolha tenham lido o texto de Aldo Rebelo. A pergunta nº 7 chega à sordidez. Leiam:
Outra proposta é que todos os proprietários de terra que desmataram ilegalmente até junho de 2008 estariam isentos de recuperar as áreas desmatadas. Você é a favor ou contra que esses proprietários de terra sejam isentos de recuperar as áreas desmatadas?

Não dá! É mentira! O texto está aí para consulta do Datafolha, da direção das Organizações Folha, dos diretores de jornais, revistas e portais, dos blogueiros etc. Se alguém achar essa “proposta” no Código, mudo de profissão, paro de escrever. É claro que 77% se disseram contrários —  21% a favor, e 2% não sabem. Na forma como vem a questão, o que se esperava?

Pergunta 2 – A trapaça
 Vejam que trapaça intelectual aparentemente singela. Marina exibe esse número pra lá e pra cá:
Na sua opinião, as mudanças no novo Código Florestal deveriam:
Olhem o que responderam os entrevistados:
 – Priorizar a proteção das florestas e rios mesmo que, em alguns casos, isso prejudique a produção agropecuária – 85%
 – Priorizar a produção agropecuária mesmo que, em alguns casos, isso prejudique a proteção das florestas e rios – 10%
 – Não sabe -5%

Viram? Não é bonitinho? Há de positivo nisso ao menos a constatação de que os ongueiros querem prejudicar a agropecuária. Eu proponho uma outra questão a ser feita pelo Datafolha:
Na sua opinião:
 – O reflorestamento tem de ser feito mesmo que a comida passe a custar mais caro por causa da diminuição da área plantada;
 – Deve-se preservar o que se tem hoje sem diminuir a área plantada;
 – Deve-se desmatar ainda mais para plantar mais e baixar o preço da comida.

Eu adoraria saber o resultado…

(…)

Finalmente
 Fiquei tomado, assim, por certa vergonha alheia ao ler o relatório do Datafolha, que é, como diria Michel Temer sobre Palocci, “muito leal a seu cliente”.
 O instituto quis saber:
Você tomou conhecimento sobre a votação no Congresso Nacional do novo Código Florestal, que é um conjunto de leis que estabelece regras para conservação de florestas nativas e limites para a atividade agropecuária?(SE SIM) Você diria que está bem informado, mais ou menos informado ou mal informado sobre esse assunto?

A resposta foi esta:
Tomou conhecimento e está bem informado – 6%:
 Tomou conhecimento e está mais ou menos informado – 41%;
 Tomou conhecimento e está mal informado – 15%;
 Não tomou conhecimento – 38%

Isso levou o Datafolha a afirmar que o assunto “é conhecido pela maioria: 62%”. Ai, ai… Pois eu diria que 53% dos que responderam a pesquisa não sabiam do que estavam falando — e, pois, foram facilmente induzidos pelas “perguntas isentas” do instituto. O grupo dos mal informados e desinformados soma 94%!

É com essa pesquisa que Marina Silva, os manineiros, as ONGs, os ongueiros e boa parte da imprensa pretendem fazer terrorismo no Congresso! É desse modo que se pretendem formar os consensos e que uma minoria de sectários passa por maioria.

A propósito, leitor, o Datafolha pergunta:
 “Você prefere um Chicabon ou um discurso da Ideli Salvatti citando Ivan Lins?”
 “Você prefere uma injeção no olho ou um Chicabon?”
 “Você prefere um Chicabon ou dois Chicabons?”

Por Reinaldo Azevedo

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/vejam-leitores-como-tentam-engana-los-um-caso-descarado-de-manipulacao-da-opiniao-publica-que-deveria-virar-tese-academica-ou-como-uma-minoria-pretende-impor-sua-vontade-a-maioria/

Anúncios
Explore posts in the same categories: Lazer, Política

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: