Vida continua sendo Vida

Como é bacana o debate! Aquela coluna da terça passada do JP Coutinho causou uma discussão com outra colunista do jornal, Bárbara Gancia. Do alto de seu funcionalismo biológico (que até já foi criticado aqui nesse blog), Bárbara achou a posição de JP acerca da eutanásia “tinhosa” e de quem nunca se deparou com uma situação de morte de verdade. Ela diz, na sua coluna publicada dia 17/6, que “só quem não teve tempo de ver a morte de perto não sabe que na hora em que a vida está por um fio ninguém quer estar entorpecido.” Coutinho a responde hoje, reafirmando o crime que é a eutanásia. Eu penso assim: será que Bárbara já viu a morte assim? Já esteve em estado terminal? Sabe o que é a vida por um fio realmente? Na concepção de “vida” que ela tem, pode até fazer sentido; é a mesma que escrevi semana passada: aquela que acha que existem VIDAS e existem simplesmente vidinhas esperando por um fim.

 

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Mais champanhe, por favor


Qualquer manual de ética médica dirá que a função da medicina é curar, não matar. E não é mero truísmo


BARBARA GANCIA dedicou-me a sua última coluna aqui nesta Folha (“Santo dr. Kevorkian”, 17/6/2011). É sempre um prazer lê-la. Mas que fiz eu para despertar a amigável ira da colunista?
Simples: terei escrito um texto “tinhoso” onde encontrei uma “saída fácil” para o problema da eutanásia (“Champanhe e ópio”, 13/6/2011).
Pior ainda: usei Oscar Wilde, e sua combinação letal de champanhe e ópio, para defender que uma sociedade civilizada alivia a dor de quem sofre, e não mata quem sofre.
Barbara Gancia tem outra opinião. Ou, para sermos exatos, duas.
A primeira baseia-se em amigos seus que, padecendo de Aids, não embarcaram em boemias; agarraram-se antes “ao que é mais comezinho” e tentaram comemorar cada manhã como um milagre.
Como é evidente, o meu texto não lidava com esses casos; lidava, relembro, com situações terminais, onde a dor é insustentável, e a opção é tripla: continuar sofrendo; aliviar esse sofrimento com “champanhe e ópio” (uma metáfora paliativa, claro); ou matar pura e simplesmente o doente.
O segundo caso apresentado pela colunista, porém, merece outra reflexão: trata-se do pai de Barbara Gancia, que “agonizou” dois anos num hospital com Alzheimer. Não teria sido preferível ministrar-lhe o “método Kevorkian”, ou seja, e com todas as letras, matá-lo?
Infelizmente, não é possível discutir temas éticos quando eles são apresentados como prolongamentos de experiências pessoais.
Se tal fosse possível, ou até desejável, só haveria um castigo no mundo para quem comete homicídios: a pena de morte. Se Barbara Gancia tem dúvidas, sugiro-lhe que pergunte à família das vítimas.
Mas o erro de Barbara Gancia não está apenas em tornar universal o que é do domínio pessoal. Existe um erro maior na defesa de que um médico “pode desafiar a lei”.
Essa, aliás, teria sido a proeza de Jack Kevorkian, um pioneiro da eutanásia e do suicídio assistido e, segundo Gancia, um “santo”.
Sobre o pioneirismo de Kevorkian, nada a dizer: há pioneiros para tudo. Mas estranho a “santidade” dele, sobretudo quando se sabe que Kevorkian não se limitou a matar (ou a fornecer os instrumentos de morte) a doentes irrecuperáveis ou terminais.
Jack excedeu esses limites e, mais que uma vez, despachou para o outro lado gente que estava longe dessas situações extremas. Ou, mais grave ainda, gente que nem sequer estava realmente doente.
Moral da história? Qualquer manual de ética médica dirá que a função da medicina é curar, não matar. E isso não é um mero truísmo.
Quando se afirma que a vocação da medicina é curar, e não matar, o que se afirma é que existem limites à ação dos médicos. E esses limites são importantes porque os médicos detêm literalmente um poder de vida e morte sobre outros homens.
Daniel Callahan, conhecido filósofo que tem escrito sobre bioética, é ainda mais claro sobre esse ponto: a proibição da eutanásia e do suicídio assistido, que vigora na esmagadora maioria dos países, não se deve apenas à “imoralidade” do ato.
Deve-se também à necessidade de proteger os doentes de “santos” como o dr. Kevorkian.
Regresso ao início: champanhe e ópio. Quando Oscar Wilde abandonou os tratamentos e encomendou a sua farra final, sabia que a farra seria final. Mas Wilde não foi caso único. Hoje mesmo, enquanto escrevo, existem famílias em quartos de hospital que se confrontam com o mesmo dilema. E que também sabem que certas doses de opióides acabam por apressar o fim inevitável.
Existe um termo técnico para isso -eutanásia do duplo efeito. E há quem diga que ela não se distingue da eutanásia ativa e voluntária pois o fim, ainda que colateral, é o mesmo. Sim, talvez o fim seja o mesmo; mas os meios são diferentes.
E quando imagino Oscar Wilde no seu quarto de Paris, eu não o imagino a morrer de fome ou de sede, como acontece quando se suspendem os suportes vitais de um doente. Nem o imagino em espasmos de agonia, como acontece aos pacientes que viajam para a Suíça e, muitas vezes, são gaseados nas clínicas da morte. Com o meu romantismo “tinhoso”, prefiro imaginar o velho Wilde com uma taça na mão, bebendo champanhe e nunca pentobarbital sódico.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2106201116.htm

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Mais champanhe, por favor


Qualquer manual de ética médica dirá que a função da medicina é curar, não matar. E não é mero truísmo


BARBARA GANCIA dedicou-me a sua última coluna aqui nesta Folha (“Santo dr. Kevorkian”, 17/6/2011). É sempre um prazer lê-la. Mas que fiz eu para despertar a amigável ira da colunista?
Simples: terei escrito um texto “tinhoso” onde encontrei uma “saída fácil” para o problema da eutanásia (“Champanhe e ópio”, 13/6/2011).
Pior ainda: usei Oscar Wilde, e sua combinação letal de champanhe e ópio, para defender que uma sociedade civilizada alivia a dor de quem sofre, e não mata quem sofre.
Barbara Gancia tem outra opinião. Ou, para sermos exatos, duas.
A primeira baseia-se em amigos seus que, padecendo de Aids, não embarcaram em boemias; agarraram-se antes “ao que é mais comezinho” e tentaram comemorar cada manhã como um milagre.
Como é evidente, o meu texto não lidava com esses casos; lidava, relembro, com situações terminais, onde a dor é insustentável, e a opção é tripla: continuar sofrendo; aliviar esse sofrimento com “champanhe e ópio” (uma metáfora paliativa, claro); ou matar pura e simplesmente o doente.
O segundo caso apresentado pela colunista, porém, merece outra reflexão: trata-se do pai de Barbara Gancia, que “agonizou” dois anos num hospital com Alzheimer. Não teria sido preferível ministrar-lhe o “método Kevorkian”, ou seja, e com todas as letras, matá-lo?
Infelizmente, não é possível discutir temas éticos quando eles são apresentados como prolongamentos de experiências pessoais.
Se tal fosse possível, ou até desejável, só haveria um castigo no mundo para quem comete homicídios: a pena de morte. Se Barbara Gancia tem dúvidas, sugiro-lhe que pergunte à família das vítimas.
Mas o erro de Barbara Gancia não está apenas em tornar universal o que é do domínio pessoal. Existe um erro maior na defesa de que um médico “pode desafiar a lei”.
Essa, aliás, teria sido a proeza de Jack Kevorkian, um pioneiro da eutanásia e do suicídio assistido e, segundo Gancia, um “santo”.
Sobre o pioneirismo de Kevorkian, nada a dizer: há pioneiros para tudo. Mas estranho a “santidade” dele, sobretudo quando se sabe que Kevorkian não se limitou a matar (ou a fornecer os instrumentos de morte) a doentes irrecuperáveis ou terminais.
Jack excedeu esses limites e, mais que uma vez, despachou para o outro lado gente que estava longe dessas situações extremas. Ou, mais grave ainda, gente que nem sequer estava realmente doente.
Moral da história? Qualquer manual de ética médica dirá que a função da medicina é curar, não matar. E isso não é um mero truísmo.
Quando se afirma que a vocação da medicina é curar, e não matar, o que se afirma é que existem limites à ação dos médicos. E esses limites são importantes porque os médicos detêm literalmente um poder de vida e morte sobre outros homens.
Daniel Callahan, conhecido filósofo que tem escrito sobre bioética, é ainda mais claro sobre esse ponto: a proibição da eutanásia e do suicídio assistido, que vigora na esmagadora maioria dos países, não se deve apenas à “imoralidade” do ato.
Deve-se também à necessidade de proteger os doentes de “santos” como o dr. Kevorkian.
Regresso ao início: champanhe e ópio. Quando Oscar Wilde abandonou os tratamentos e encomendou a sua farra final, sabia que a farra seria final. Mas Wilde não foi caso único. Hoje mesmo, enquanto escrevo, existem famílias em quartos de hospital que se confrontam com o mesmo dilema. E que também sabem que certas doses de opióides acabam por apressar o fim inevitável.
Existe um termo técnico para isso -eutanásia do duplo efeito. E há quem diga que ela não se distingue da eutanásia ativa e voluntária pois o fim, ainda que colateral, é o mesmo. Sim, talvez o fim seja o mesmo; mas os meios são diferentes.
E quando imagino Oscar Wilde no seu quarto de Paris, eu não o imagino a morrer de fome ou de sede, como acontece quando se suspendem os suportes vitais de um doente. Nem o imagino em espasmos de agonia, como acontece aos pacientes que viajam para a Suíça e, muitas vezes, são gaseados nas clínicas da morte. Com o meu romantismo “tinhoso”, prefiro imaginar o velho Wilde com uma taça na mão, bebendo champanhe e nunca pentobarbital sódico.

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